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terça-feira, 20 de março de 2012

EM DEFESA DO SOCIALISMO CIENTÍFICO: PATRIOTISMO POPULAR OU NACIONALISMO BURGUÊS

Lenin, na sua obra “Marxismo e revisionismo” (1908), demonstrou como algumas correntes supostamente marxistas nada mais eram do quê a continuidade da presença pequeno-burguesa no seio da classe trabalhadora, na qual o próprio Marx havia travado intenso combate. Vencedor, o marxismo se hegemonizara no movimento operário europeu, condenando as correntes utópicas ao isolamento. Porém, a raiz histórica desse fenômeno não havia se alterado, a pequena-burguesia apenas mudara a forma de atuação, passando a se travestir de marxista, mas continuando a defender concepções equivocadas, vacilantes e conciliadoras. No início do séc. XX essa corrente atinge o seu auge, hegemonizando-se na II Internacional e se autoproclamando revisionista. Em nome da atualização do marxismo, pregavam a revisão de alguns aspectos centrais da teoria revolucionária, entre elas a negação da necessidade da revolução como meio para alcançar o poder e o socialismo.

Um dos componentes fundamentais dessa primeira geração de revisionistas foi a defesa incondicional de suas respectivas nações, levando a II Internacional à falência com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Os partidos social-democratas (onde se organizavam os marxistas até a fundação da III Internacional e a construção de diversos Partidos Comunistas pelo mundo) agiram como legítimos lacaios das burguesias de seus respectivos países, justificando entre a classe operária o massacre de milhões de trabalhadores em um confronto causado pela voracidade imperialista. O revisionismo ficou a reboque do nacionalismo chauvinista burguês.


A traição da social-democracia e a vitória da Revolução Russa impulsionaram a reorganização dos trabalhadores sob as bandeiras da III Internacional, mas não impediram que o revisionismo continuasse presente dentro do movimento comunista (o eurocomunismo é um exemplo). Atualmente, o revisionismo ainda se manifesta, atuando até mesmo de maneira hegemônica dentro de organizações outrora revolucionárias (inclusive no Brasil). Um dos aspectos dessa corrente continua a ser o chauvinismo, agora oportunamente disfarçado de patriotismo anti-imperialista.


No final do século XIX o capitalismo entra em sua fase imperialista e o centro da luta pelo socialismo passa para os países menos desenvolvidos. Uma das características fundamentais da luta revolucionária nessas nações passa a ser o enfrentamento do imperialismo, reforçando o sentimento patriótico entre os trabalhadores. Tanto a China quanto o Vietnã tiveram sucesso ao unir as tarefas de libertação nacional com a revolução socialista. Ho Chi Minh escreveu em 1960: “somente o socialismo e o comunismo poderiam libertar as nações oprimidas e o povo trabalhador ao redor do mundo da escravidão”.


Mas as distorções nacionalistas revisionistas nada têm a ver com o patriotismo revolucionário, por mais que evoquem esse último, latem como cães de guarda da burguesia, geralmente contra um país vizinho mais fraco ou até mesmo para justificar sua submissão a essa burguesia. O patriotismo proletário é essencialmente internacionalista ao estimular e defender os direitos de outros povos, compreendendo que o único setor capaz de levar a frente esses desejos verdadeiramente patrióticos é a classe trabalhadora, diferente dos revisionistas que só admitem o patriotismo de seus respectivos países e alimentam ilusões quanto ao comprometimento da burguesia na luta por emancipação nacional e social. A histórica exploração da América Latina por parte da maior potência imperialista da história (EUA) faz da luta anti-imperialista um componente essencial da luta pelo socialismo na região, exigindo dos revolucionários a denúncia da hipocrisia do nacionalismo burguês e/ou revisionista.



Referências bibliográficas

LENIN, V. Ilitch. Marxismo e revisionismo. Disponível em www.marxists.org/portugues

LENIN, V. Ilitch. O oportunismo e a falência da II Internacional. Disponível em www.marxists.org/portugues

TSÉ-TUNG, Mao. O Livro Vermelho. Martín Claret.

MARX, Karl e ENGELS, Friederich. Manifesto do Partido Comunista. Disponível em www.marxists.org/portugues

MINH, Ho Chi. Algumas considerações sobre a questão colonial. Disponível em www.marxists.org/portugues

MINH, Ho Chi. Lenin e os povos colonizados. Disponível em www.marxists.org/portugues

MINH, Ho Chi. O caminho que me levou ao leninismo. Disponível em www.marxists.org/portugues

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quinta-feira, 8 de março de 2012

POPULISMO X CHAVIZMO: DIFERENÇAS HISTÓRICAS


Desde a ascenção de Chávez na Venezuela a mídia de todo o mundo tem feito uma campanha para desmoralizar o processo revolucionário e um dos meios utilizados é a ridícula comparação com o populismo. A mídia, como representante fiel da classe dominante, faz de tudo para descredibilizar qualquer processo revolucionário com medo de que estes sirvam de exemplo para os demais povos. A luta contra a "moderna Santa-Aliança" liderada pelo imperialismo ianque é um dever de todo indivíduo comprometido com o desenvolvimento harmônico, a solidariedade entre os povos e a verdade.

De fato a esquerda institucional radical latino-americana da virada desse século compartilha características em comum com o populismo do século passado, mas o centro de uma análise coerente não pode ser apenas a forma em detrimento do conteúdo e é nisso que pecam tanto os cães de guarda da grande mídia quanto os ortodoxos autodenominados de esquerda.

O conteúdo de classe do populismo era essencialmente burguês, surgiu para defender a industrialização nacional e lutar contra as elites agrárias e os setores burgueses ligados ao imperialismo. Estabeleceram uma aliança com a classe operária como forma de obter apoio para seu projeto anti-imperialista e ao mesmo tempo garantir a hegemonia burguesa, impedindo a revolução comunista. Era um período de ofensiva histórica das forças revolucionárias socialistas e de grande prestígio da Revolução Russa. O populismo era declaradamente anti-comunista, chegando em certos momentos a perseguir tanto os revolucionários quanto qualquer ditadura pró-imperialismo.

As esquerdas eleitorais surgidas na década de 90 e que estão ganhando força nesse início de século XXI já surgem em um momento histórico totalmente diferente. No mundo, o imperialismo avança com grande força e os revolucionários tradicionais encontram-se em defensiva estratégica, acuados principalmente por causa da queda da URSS (na qual foi muito comemorada por alguns pseudo-marxistas que hoje batem em Chávez) e da crise do marxismo. Em seus respectivos países (Venezuela, Bolívia, etc.) a ala nacionalista da burguesia encontra-se totalmente debilitada, foi derrotada através de golpes militares e mantida fora do poder durante as décadas de avanço neoliberal. Na Venezuela, Chávez é representante de amplos setores da sociedade, principalmente camponeses, trabalhadores urbanos e pequenos proprietários. Chávez é declaradamente socialista, possui um projeto claro de construção do poder popular e de socialização da propriedade privada, que ainda está em curso, podendo ou não se concretizar. A participação do Partido Comunista no governo de Chávez é outro fator que não pode ser esquecido.

O populismo serviu para impedir a revolução comunista num momento de ofensiva histórica do marxismo-leninismo. O chavizmo é o oposto, é uma resposta de amplos setores da sociedade às mazelas do capitalismo num momento onde as forças marxistas-leninistas encontram-se em defensiva estratégica. O conteúdo de classe e o momento histórico dos movimentos são totalmente distintos e até opostos. Querer dizer que vinho é igual água por que os dois são liquidos chega a ser infantil e chamar Chávez de populista, neopopulista ou sei lá qual termo inventem, não passa de aplicação mecânica do passado, quase sempre mal intencionada.

A pouca compreensão da importância do socialismo científico como guia para a ação revolucionária e a não condução direta do processo por uma vanguarda leninista pode gerar uma série de contradições no processo revolucionário venezuelano, mas nada melhor do que a prática revolucionária para aperfeiçoar dia após dia a luta do povo latino-americano pela "Pátria Grande" e socialista.

Pátria, socialismo ou morte!

Juramos vencer e venceremos!

Diego Grossi

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sábado, 3 de março de 2012

CRÍTICA DA CRÍTICA AO "SOCIALISMO REAL"

O termo socialismo real tem sido utilizado vulgarmente, tanto por pesquisadores quanto em sala de aula, para se referir aos processos revolucionários dos países que implementaram o socialismo ao longo do século XX. Geralmente com grande carga de propaganda negativa, o termo ignora o referencial teórico/ ideológico dessas próprias experiências, guiadas pelas contribuições de Marx, Engels e Lenin.

Desde o surgimento das sociedades de classes, surgiram em diferentes povos, pensadores com idéias baseadas na divisão das riquezas e no equilíbrio econômico-social de todas as pessoas, essas idéias ganham corpo e força com o advento da Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX, já que com o surgimento de um novo sujeito histórico, a classe trabalhadora, surgia também uma nova força social capaz de colocar essas idéias em prática. Surgem então novos pensadores (Owen, Proudhon, etc.) que retomam esse ideal de justiça social plena, guiando teoricamente a luta popular contra a exploração característica do modo de produção capitalista. Porém, apesar da dedicação e das boas intenções, essas idéias socialistas careciam de fundamentos científicos, estes pensadores idealizavam uma sociedade perfeita, mas viável apenas em suas cabeças. No entanto, na segunda metade do século XIX, a luta dos trabalhadores se eleva a um novo patamar. O aprofundamento do desenvolvimento do capitalismo e o acirramento da luta de classes lança novos elementos que serão estudados por 2 pensadores alemães, Friederich Engels e Karl Marx, cujos resultados serão difundidos entre o movimento operário principalmente através da Associação Internacional dos Trabalhadores, a I Internacional e também (durante certo tempo, até sua falência ideológica no início do século XX) pela II Internacional.

Em 1880 Friederich Engels escreve a obra "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico", no qual descreve todo o desenvolvimento histórico por trás do surgimento das teorias socialistas e apresenta as diferenças fundamentais entre a sua linha de pensamento (desenvolvida junto a Karl Marx) e de todos os outros autores precedentes, demonstrando a superação das idéias pré-marxistas pela ciência do materialismo dialético.

As bases do Socialismo Científico não são compostas apenas de boa intenção, ou idéias mirabolantes sobre um "paraíso na Terra", mas sim por conclusões conquistadas através de uma análise científica da humanidade, seu desenvolvimento histórico, o pensamento filosófico, suas características biológicas, as leis que regem a economia capitalista, etc. E como ciência, essa corrente está sim aberta à novas contribuições, à correções. Em momento nenhum Marx e Engels criaram um modelo de sociedade para ser aplicado mecanicamente, mas sim elaboraram linhas gerais (expostas principalmente no Manifesto Comunista de 1848 e em O Capital) que deveriam guiar os trabalhadores na luta contra o capitalismo e pela socialização plena dos meios de produção e do poder político. O Socialismo Científico não é e jamais foi uma espécie de dogma.

O termo "Socialismo Real" ignora isso, pois apresenta como uma grande inovação a diferenciação entre o pensamento marxiano (composto estritamente pelas obras de Marx) e os regimes marxistas (guiados pelas idéias de Marx, mas não restritos ao mesmo). Mostra-se o óbvio como se fosse algo novo e ainda por cima de forma distorcida, reinventam a roda, mas composta por 4 lados iguais ao invés de um círculo.

O caráter equivocado desse termo fica ainda mais perceptível quando chegamos aos seus fins. No geral, quando falam de "Socialismo Real", citam como suas características o unipartidarismo, a repressão, a "boa vida dos dirigentes em contraste com os direitos do povo" e até mesmo os absurdos mais clássicos, como "médico e lixeiro ganham igual e por isso o povo é estimulado a ser vagabundo", "não existe variedade de roupas", etc. Fazendo um misto entre 75% de mentiras e 25% de descontextualizações (que já foram suficientemente refutadas e podem ser encontradas por qualquer um com boa vontade, até mesmo com a leitura das Constituições das nações socialistas).

O incrível é que no próprio conteúdo escolar a posição exposta por Engels na obra citada é amplamente aceita, sendo parte do programa tradicional a diferenciação entre o Socialismo Utópico e o Socialismo Científico, mas ainda sim, (geralmente quando se fala em Guerra Fria), pouco tempo depois fazem essa distinção entre o Socialismo Ideal, teoria de Marx e Engels, das experiências edificadas nos países socialistas, concluindo de maneira embusteira a suposta falência dos ideais de Marx e Engels e a suposta traição dos processos vitoriosos.

Qualquer ciência está exposta à adaptações, inclusive, superações só são possíveis pelo fato de haver uma série de contribuições anteriores. É ridículo apresentar um suposto rompimento entre os países socialistas e a obra de Marx e Engels, até pelo fato dos mesmos terem sido enfáticos sobre o caráter científico, não dogmático e histórico de suas produções intelectuais. Seria como se em Biologia qualquer nova descoberta sobre a evolução da humanidade ou de qualquer outra forma de desenvolvimento biológico, fosse apresentada como uma comprovação dos "erros" de Darwin.

Esse suposto equivoco não passa de reprodução da propaganda estadunidense durante a Guerra Fria, pois além das falhas já citadas, trás uma forma covarde de combate intelectual, não negando a "boa vontade" e a "genialidade" de Marx e Engels, mas contrapondo-as à materialização dessas idéias, fugindo da discussão sobre os fundamentos científicos desses autores (já que os ideólogos burgueses foram e são incapazes de refutá-los) e tendo como alvo os processos revolucionários que por serem vivos, estão sujeitos à falhas como qualquer outro evento histórico, planejado ou não. Tentam reproduzir a polêmica entre um socialismo ideal e o que pode ser colocado em prática ignorando que isso já fora feito com a fundamentação do Socialismo Científico pelos 2 autores alemães.

Infelizmente, muitos ainda reproduzem essa idéia de maneira inocente, sem a intenção de fazer propaganda pró-capitalismo, mas a conclusão que podemos tirar da luta da ciência contra a utopia travado dentro do movimento socialista é um velho ditado: De boas intenções o inferno está cheio.

Diego Grossi

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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

AS MISTIFICAÇÕES DA IDEOLOGIA BURGUESA EM RELAÇÃO AO PENSAMENTO COMUNISTA


"Se você é comunista, por que usa tênis da Nike?”

Pode parecer sem sentido começar um texto com uma frase desse tipo, mas ela reflete bem uma faceta da ideologia burguesa que será analisada e combatida ao longo do artigo. Perguntas do tipo, em suas mais diversas variações, provavelmente já foram ouvidas por todos os comunistas que lerem este texto, mas ela reflete algo muito mais complexo do que uma ingenuidade ou um erro de interpretação cometido por alguém que inicia seus estudos do marxismo. Vamos, então, analisar quais seriam os pressupostos, em dois pontos, daqueles que geralmente fazem uma pergunta do tipo.


1.“O socialismo como negação absoluta do capitalismo”

Que os comunistas defendem um novo tipo de sociedade, a sociedade socialista e comunista, não é nenhuma novidade. Porém, tal sociedade representa uma negação completa da sociedade que ela visa substituir, ou seja, a sociedade capitalista? Vejamos o que diz Lênin, em seu texto Sobre o Imposto em Espécie publicado em Maio de 1921:

"“Nós” voltamos frequentemente a cair neste raciocínio: “o capitalismo é um mal, o socialismo é um bem”. Mas este raciocínio é errado, porque esquece o conjunto das estruturas econômico-sociais existentes, abarcando apenas duas delas."

E continua:

“O capitalismo é um mal em relação ao socialismo. O capitalismo é um bem em relação ao medievalismo, em relação à pequena produção, em relação ao burocratismo ligado à dispersão dos pequenos produtores”

A passagem que citamos, encontra-se em um texto que foi escrito por Lênin, com o objetivo de intervir na luta de idéias no seio do Partido Comunista da União Soviética, em favor da NEP, e sua política que estabeleceu um imposto em espécie aos camponeses russos, para que eles vendessem sua produção excedente após o pagamento do mesmo. Era urgente para os bolcheviques empreenderem a reconstrução econômica da Rússia, que estava devastada após a guerra-civil, e a solução encontrada foi permitir a liberalização de relações mercantis no campo, guiando cada vez mais a pequena-produção para o capitalismo de estado e também utilizando o capitalismo privado para o fortalecimento do socialismo.

Estaria Lênin e os bolcheviques “traindo” o comunismo? Apesar de uma parcela da “esquerda” da época, como os anarquistas e os chamados “comunistas de conselho”, julgamos que não e a própria prática acabou demonstrando a justeza desta concepção leninista da construção socialismo.

Fizemos questão de citar esta passagem do texto de Lênin, pois ela evidencia algo que muitas vezes fica esquecido: O capitalismo não é de todo um mal, se comparado a práticas e formações sociais características de modos de produção mais atrasados, como, por exemplo, o feudalismo, que era uma realidade na época em que os bolcheviques tomaram o poder na Rússia. Ainda em outro texto, publicado em 1918, chamado A tarefa principal de Nossos Dias – Acerca do Infantilismo “de Esquerda” e do Espírito Pequeno-Burguês, Lênin exorta que os comunistas aprendam com o que existe de mais moderno em termos de técnica e organização da produção.

Se defendêssemos concepções como a que serve de base para nossos comentários, não poderíamos demorar mais um minuto para colocarmos Lênin na lista daqueles que “traíram” o socialismo e se venderam ao capital.

Com o que aqui foi exposto, podemos concluir que o socialismo é a superação da sociedade capitalista e não sua simples negação; superação que se dará por meio da socialização dos meios de produção, que necessitam de condições subjetivas e objetivas para serem realizadas. Para construir com êxito a sociedade socialista, é de extrema importância observar e aprender com o que existe de mais avançado em termos de ciência, tecnologia e organização alcançado por países capitalistas mais desenvolvidos.


2. “Comunistas não podem consumir produtos feitos por empresas capitalistas”

O segundo pressuposto é um dos mais recorrentes pela ideologia burguesa dominante. Este argumento deixa mais ou menos implícito que o comunista é aquele que atua contra a ordem estabelecida por meio dos boicotes a marcas famosas de variados tipos de produto. Segundo esta idéia, um comunista não poderia utilizar, por exemplo, um tênis da Nike, pois a marca do tênis é um símbolo importante do capitalismo, sociedade que o comunista combate e que, portanto, segundo o burguês, deveria negar por completo. Os comunistas, por serem críticos da ordem capitalista, deveriam abrir mão de maravilhas do tipo, frutos exclusivos do capitalismo, criações milagrosas da idolatrada figura do empreendedor de sucesso, ou seja, do burguês.

Tal concepção esquece um dado, que para os marxistas é fundamental: Quem produz o tênis da Nike, por meio do trabalho, são os trabalhadores e não o proprietários/acionistas de uma determinada empresa.

Como observou o filósofo espanhol Francisco Umpierrez Sanchez, em texto que aborda um tema parecido, publicado no site Rebelion (Fidel Castro y el chándal de Adidas):

"Diante das pirâmides do Egito o burguês enxerga somente o faraó que as mandou construir, enquanto o marxista enxerga os escravos que a criaram."

Sendo assim, por viver em uma sociedade capitalista e estar necessariamente inserido em relações de produção capitalistas, um comunista também pode consumir os produtos – que antes de tudo são produzidos pelos trabalhadores – das grandes marcas, ainda que desvencilhados de uma visão fetichista da mercadoria. Os produtos são feitos sob o capitalismo, mas antes de representar a marca, a empresa, são frutos do trabalho humano, que é a categoria fundante do homem enquanto ser social. O trabalho também existiu em outras sociedades (escravismo, feudalismo) e continuará existindo na sociedade socialista e comunista.

Gabriel Martinez

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

JAMES PETRAS: A TENDÊNCIA À BARBARIE E AS PERSPECTIVAS DO SOCIALISMO


As sociedades ocidentais e os Estados estão se deslocando inexoravelmente para condições semelhantes à barbárie; mudanças estruturais estão revertendo décadas de bem-estar social e sujeitando o trabalho, os recursos naturais e as riquezas das nações à exploração bruta, à pilhagem e ao saque, rebaixando os padrões de vida e causando descontentamento num nível sem precedentes.

Inicialmente, descreveremos os processos econômicos, políticos e militares que vêm abrindo este caminho à decadência e à decomposição social, e a seguir mostraremos a reação das massas populares à deterioração de suas condições de vida. As profundas mudanças estruturais que acompanham a ascensão da barbárie constituirão a base para considerar as perspectivas para o socialismo no século XXI.

A crescente onda de barbárie

Nas sociedades antigas, a "barbárie" e os seus portadores – os "bárbaros" invasores – foram vistos como uma ameaça vinda das regiões periféricas de Roma ou Atenas. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, os bárbaros vêm de dentro, da elite, com a intenção de impor uma nova ordem que corrói o tecido social e a base produtiva da sociedade, convertendo meios de subsistência estáveis em condições deterioradas e inseguras da vida cotidiana.

A chave para a barbárie contemporânea encontra-se nas estruturas internas do Estado imperial e da economia. Estas incluem:

1. A ascensão de uma elite financeira e especulativa, que tem saqueado trilhões de dólares dos poupadores, investidores, mutuários, consumidores e do Estado, subtraindo enormes recursos da economia produtiva e colocando-os nas mãos da camada parasitária aninhada no Estado e nos mercados financeiros.

2. A elite política militarista, que vem supervisionando um estado de guerra permanente desde meados do século passado. Terror de Estado, guerras intermináveis, assassinatos em zonas fronteiriças e a suspensão das garantias constitucionais tradicionais levaram à concentração de poderes ditatoriais, prisões arbitrárias, torturas e à negação do habeas corpus.

3. Em meio a uma profunda recessão econômica e estagnação, os altos gastos do Estado na construção de um império econômico e militar, às expensas da economia nacional e dos padrões de vida, refletem a subordinação da economia local às atividades do Estado imperial.

4. A corrupção desde o topo, visível em todos os aspectos da atividade do Estado - desde as aquisições de bens e serviços até a privatização e os subsídios para os super-ricos –, incentiva o crescimento do crime internacional de cima para baixo, a lumpenização da classe capitalista e um Estado onde a lei e a ordem se encontram em descrédito.

5. Resultantes dos elevados custos de construção do império e da pilhagem da oligarquia financeira, os encargos sócio-econômicos recaem diretamente sobre os ombros dos trabalhadores assalariados, aposentados e trabalhadores por conta própria, determinando uma grande mobilidade descendente na escala social ao longo do tempo. Com a perda de empregos e o desaparecimento das posições mais bem remuneradas, as retomadas de casas pelos bancos crescem exponencialmente e as classes médias, antes estáveis, encolhem, e os trabalhadores são forçados a alongar suas jornadas de trabalho diárias e a trabalhar durante um maior número de anos.

6. As guerras imperiais, que se espalham pelo mundo e são direcionadas a populações inteiras, que sofrem com os bombardeios e as operações clandestinas de terror, geram, em oposição, redes terroristas, que também atingem alvos civis nos mercados, transportes e espaços públicos. O mundo vai se parecendo ao pesadelo hobbesiano de "todos contra todos".

7. Um crescente extremismo etno-religioso ligado ao militarismo é encontrado entre os cristãos, judeus, muçulmanos e hindus, que substitui a solidariedade de classe internacional por doutrinas de supremacia racial e penetra as estruturas profundas dos Estados e das sociedades.

8. O desaparecimento dos Estados europeus e asiáticos de bem-estar social coletivo – nomeadamente, a ex-URSS e a China – levantou as pressões competitivas sobre o capitalismo ocidental e o encorajou à revogação de todas as concessões de bem-estar social obtidas pela classe trabalhadora no período pós-II Guerra Mundial.

9. O fim do "comunismo" e a integração da social-democracia ao sistema capitalista levaram a um enfraquecimento severo da esquerda, que os protestos esporádicos dos movimentos sociais não conseguiram substituir.

10. Diante do atual assalto às condições de vida dos trabalhadores e da classe média, só se vêem protestos esporádicos, no melhor dos casos, e impotência política, no pior.

11. A exploração maciça do trabalho nas sociedades capitalistas pós-revolucionárias, como a China e o Vietnã, compreende a exclusão de centenas de milhões de trabalhadores migrantes dos serviços públicos elementares de educação e saúde. A pilhagem sem precedentes e a captura, por oligarquias nacionais e multinacionais estrangeiras, de milhares de lucrativas empresas públicas estratégicas da Rússia, das repúblicas da ex-União Soviética, dos países da Europa Oriental, dos Bálcãs e dos países bálticos, foram a maior transferência de riqueza pública para mãos privadas, em curto espaço de tempo, em toda a História.

Em resumo, a barbárie surgiu como uma realidade definida, produto da ascensão de uma classe dominante financeira parasitária e militarista. Os bárbaros encontram-se aqui e agora, presentes dentro das fronteiras das sociedades ocidentais e seus Estados. Eles governam e perseguem agressivamente uma agenda que está continuamente a reduzir os padrões de vida, a transferir a riqueza pública para os seus cofres privados, a pilhar recursos públicos, a violar direitos constitucionais no exercício de suas guerras imperiais, a segregar e perseguir milhões de trabalhadores imigrantes e a promover a desintegração e o desaparecimento do trabalho estável e de classe média. Mais do que em qualquer outro momento na história recente, o 1% mais rico da população controla uma parcela crescente das riquezas e das rendas nacionais.

Mitos e realidades do capitalismo histórico

A retirada, em grande escala e de forma sustentada, dos direitos sociais e previdenciários, da segurança no emprego, e as reduções de salários e aposentadorias, demonstram a falsidade da idéia do progresso linear do capitalismo. Essa reversão, produto do poder ampliado da classe capitalista, demonstra a validade da proposição marxista de que a luta de classes é o motor da História – na medida em que, pelo menos, a própria condição humana é considerada como sua peça central.

A segunda premissa falsa – a de que os Estados organizados em "economias de mercado" têm como pré-requisito a paz, tendo como corolário a ascendência dos "mercados" sobre o militarismo – é refutada pelo fato de que a principal economia de mercado – os Estados Unidos – tem permanecido em constante estado de guerra desde o início da década de 1940, estando ativamente engajada em guerras em quatro continentes, até os dias de hoje, e com perspectiva de novas, maiores e mais sangrentas guerras no horizonte. A causa e conseqüência da guerra permanente é o crescimento de um monstruoso "Estado de segurança nacional" que não reconhece fronteiras nacionais e absorve a maior parte do Orçamento do país.

O terceiro mito do "capitalismo avançado maduro" é o de que este sempre revoluciona a produção através da inovação e da tecnologia. Com a ascensão da elite financeira especulativa e militarista, as forças produtivas foram saqueadas e a "inovação" é em grande parte direcionada à elaboração de instrumentos financeiros que exploram os investidores, reduzem os ativos e acabam com o trabalho produtivo.

Enquanto o império cresce, a economia local se contrai, o poder está centralizado no Executivo, o poder legislativo é reduzido e aos cidadãos é negada uma representação efetiva, ou mesmo o poder de veto através de processos eleitorais.

A resposta das massas ao aumento da barbárie

A ascensão da barbárie em nosso meio tem provocado revolta pública contra seus principais executores. As pesquisas de opinião têm reiteradamente encontrado:

(1) Profunda aversão e revolta contra todos os partidos políticos.

(2) Grande desconfiança, nutrida pela maioria da população, contra a elite empresarial e política.

(3) Rejeição, também pela maioria, da concentração de poder corporativo e do seu abuso, principalmente por parte dos banqueiros e financistas.

(4) Questionamento amplo das credenciais democráticas dos líderes políticos que agem a mando da elite empresarial e promovem as políticas repressivas do Estado de segurança nacional.

(5) Rejeição, pela grande maioria da população, da pilhagem do Tesouro nacional para salvação dos bancos e da elite financeira, com a imposição de programas de austeridade regressivos sobre a classe média trabalhadora.

Perspectivas para o socialismo

A ofensiva capitalista teve certamente um grande impacto sobre as condições objetivas e subjetivas da classe média trabalhadora, empobrecendo-a e provocando uma onda crescente de descontentamento pessoal, que ainda não se traduziu numa movimentação anticapitalista massiva, ou mesmo numa resistência dinâmica e organizada.

As grandes mudanças estruturais requerem um melhor entendimento das atuais circunstâncias adversas e a identificação de novas instâncias e meios onde se desenvolvem a luta de classes e de transformação social.

Um problema-chave é a necessidade de se recriar uma economia produtiva e reconstruir uma classe trabalhadora industrial após anos de pilhagem financeira e desindustrialização, não necessariamente para as poluidoras indústrias do passado, mas certamente para novas indústrias que criem e utilizem fontes de energia limpa.

Em segundo lugar, as sociedades capitalistas altamente endividadas necessitam, fundamentalmente, sair do modelo de construção imperial militarista de alto custo em direção a um modelo de austeridade financeira baseado na classe e que imponha os sacrifícios e as reformas estruturais aos setores bancário, financeiro e comercial de grande varejo, que substitui a produção local pela importação de artigos de consumo de baixo custo.

Em terceiro lugar, o enxugamento do setor financeiro e do comércio retalhista exige a melhoria das qualificações dos trabalhadores que serão deslocados ou desempregados, bem como mudanças no setor de TI, de forma a acomodar as próprias mudanças econômicas. Exige, também, a mudança de um paradigma – da renda monetária para o rendimento social –, em que a educação pública e gratuita de alto nível, o acesso universal à saúde e as aposentadorias abrangentes substituirão o consumismo global financiado por dívidas. Isso pode se tornar a base para o fortalecimento da consciência de classe contra o consumismo individual.

Esta é a questão: como passar de uma posição em que a classe trabalhadora se encontra fragmentada e enfraquecida e os movimentos sociais em recuo ou na defensiva a uma posição em que seja possível lançar uma ofensiva anticapitalista?

Vários fatores subjetivos e objetivos já permitem o trabalho nesse sentido. Primeiro, há uma negatividade crescente contra a grande maioria dos atuais operadores políticos e, em particular, contra as elites econômicas e financeiras que estão claramente identificadas como responsáveis pelo declínio nos padrões de vida. Em segundo lugar, há o ponto de vista popular, compartilhado por milhões de pessoas, de que os atuais programas de austeridade são claramente injustos - com os trabalhadores a pagar pela crise que a classe capitalista produziu. Até o momento, no entanto, estas maiorias são mais "anti"-status quo do que "pró"-transformação. A transição do descontentamento privado para a ação coletiva é uma questão em aberto quanto a quem a desencadeará e como o fará, mas a oportunidade está presente.

Existem vários fatores objetivos que podem deflagrar uma mudança qualitativa do descontentamento, deslocando-o da raiva passiva rumo a um maciço movimento anticapitalista. Um "duplo mergulho" na recessão, o fim da atual recuperação anêmica e o início de uma recessão mais profunda e prolongada ou de uma depressão poderiam desacreditar ainda mais os governantes atuais e seus aliados econômicos.

Em segundo lugar, o aprofundamento interminável da austeridade poderá desacreditar a noção atual, difundida pela classe dominante, de que os sacrifícios atuais são necessários para se obterem ganhos futuros, abrindo as mentes e encorajando os corpos a se moverem à procura de soluções políticas, de forma a alcançar ganhos no presente e infligir dor às elites econômicas.

As inesgotáveis e "invencíveis" guerras imperiais que sangram a economia e a classe trabalhadora podem, em última análise, criar uma consciência de que a classe dominante oferece "sacrifícios" à nação sem nenhuma finalidade "útil".

Provavelmente, o efeito combinado de uma nova etapa da recessão, a austeridade perpétua e as estúpidas guerras imperiais acabarão por transformar o mal-estar atual e a difusa hostilidade das massas contra a elite econômica e política em favor dos movimentos socialistas, partidos e sindicatos.

James Petras


Fonte: Resistir

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domingo, 4 de julho de 2010

O PCV E O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO VENEZUELANO


Aproveitando a presença de Carolus Wimmer em Portugal, o Avante! entrevistou o dirigente do Partido Comunista da Venezuela (PCV), que abordou alguns dos temas mais actuais da situação política e social na Venezuela, o reforço do Partido entre a classe operária e os trabalhadores e as próximas eleições no país.

Avante!: Na Venezuela está um curso um processo revolucionário com características próprias. No contexto da crise capitalista, tem-se dito que o crescimento do país abrandou, que as transformações político-económicas fazem abrandar a economia e prejudicam as respostas às consequências da crise. Mas o governo venezuelano contraria esta interpretação e apresenta resultados positivos, por exemplo, no combate à pobreza e à exclusão social, e na redistribuirão de riqueza. Que outros dados nos podes fornecer?

Carolus Wimmer: É natural que a crise do capitalismo também afecte a América Latina. Mas é devido ao processo bolivariano, que começou há 11 anos e procura tornar-nos mais soberanos face às grandes potências capitalistas, que o impacto da crise internacional não tenha o mesmo efeito na Venezuela que em outros países.

Antes do processo revolucionário, vivíamos em dependência económica, científica e comercial quase completa face aos EUA. Em pouco tempo, redireccionámos a nossa política externa para a integração latino-americana, isto é, orientámo-nos para a diversificação das relações com o objectivo de consolidar uma política económica e comercial multipolar.

Esta multipolaridade implicou o estabelecimento de relações com nações de outros continentes, como a China, a Rússia, a Índia, ou países da Europa e de África, diversificação de laços que atenuou o impacto da crise, o qual seria seguramente bem maior caso mantivéssemos a dependência face aos EUA.

Evidentemente que também tivemos que aplicar as chamadas medidas de austeridade, mas estas recaíram na sua esmagadora maioria sobre o aparelho burocrático. Todos os ministérios tiveram que cortar nos gastos desnecessários, nas despesas de representação, nos luxos e nas festas.

No essencial, o PCV apoia estas medidas uma vez que o garrote na despesa do Estado fica por aqui. Desde logo ficou claro que não se mexia em nada que dissesse respeito à despesa com a política social. Por isso, ao contrário da maioria dos países capitalistas avançados, este ano os salários aumentaram na Venezuela, bem como as pensões e reformas. Aumentámos o investimento na educação, na saúde, na cultura e no desporto Recentemente fomos ainda mais longe e acabámos com as restrições nas pensões de viuvez. Agora, os cônjuges sobrevivos recebem 100 por cento da pensão contra os cerca de 60 por cento a que tinham direito antes.

Tudo isto foi decidido num ano em que a crise também nos afecta, demonstrando que se implementa de facto uma política progressista cujo objectivo é melhorar as condições de vida e de trabalho dos venezuelanos.

Falaste de investimentos. Alguns têm sido feitos no fornecimento de energia eléctrica, sector deficitário na Venezuela…

Justamente, o sector da energia eléctrica tem sido dos mais contemplados dado que nos encontrávamos num ponto crítico. Fomos desde sempre um país produtor de petróleo, mas as fontes principais de produção de electricidade são as centrais hidroeléctricas. Como não choveu durante quase dois anos, os níveis das barragens baixaram muito com consequências naturais na produção de energia eléctrica. Ora, neste contexto, o governo bolivariano foi obrigado a investir na compra e construção de termoeléctricas um pouco por todo o país. O problema ainda não está resolvido, mas cada vez mais se caminha nesse sentido, inclusive nas zonas rurais, nas regiões do interior, onde nem sequer havia luz.

No contexto de uma crise que, repito, também afecta a Venezuela, este exemplo elucida a forma como respondemos. Em todas as áreas implementamos medidas que elevem a vida do povo trabalhador.

Noutros planos essa orientação também se revela. Não se regista crescimento do desemprego, nem despedimentos massivos nos sectores público ou privado. Há uma efectiva estabilidade laboral que obriga quer as empresas públicas quer as privadas. Neste momento, ninguém pode despedir trabalhadores sem uma justificação excepcional, isto é, por razões económicas [quebra na produção ou no volume dos lucros] ninguém pode despedir um trabalhador.

Luta de classes

Nesta resposta que a Venezuela está a dar à crise capitalista, identificam-se as consequências das nacionalizações de sectores estratégicos levadas a cabo pelo governo bolivariano. É um caminho a prosseguir?

As nacionalizações resultam da luta de classes na Venezuela. Estamos a implementar um processo revolucionário com o objectivo de garantir o bem-estar do povo trabalhador e, assim, alguém tem de ser sacrificado.

Esse alguém é o capital, as grandes empresas nacionais e multinacionais que hoje são obrigadas a cumprir normas tão básicas como o pagamento de impostos – que antes não pagavam -, a melhorar os salários e as condições laborais.

Obviamente que o capital, cujo objectivo e razão única é o lucro, resiste a essas medidas e orientações estratégicas. Muitos optaram pela sabotagem ou pelo não cumprimento da lei.

Os casos mais evidentes são as empresas do sector alimentar, que não aceitam as novas condições impostas pelo Estado. Algumas declaram-se em lockout ou tratam de vender a produção ao exterior, o que implica com a segurança alimentar do país. Foi por isso que o governo se viu obrigado a intervir, a tomar conta de empresas que não produziam ou que violavam permanentemente a legislação.

Temos que recordar que nos anos 80 e 90 do século passado, as políticas neoliberais privatizaram tudo com o argumento da ineficiência do Estado. Agora, empresas fundamentais dos sectores da comunicação, energia ou alimentar tiveram que sair das mãos privadas. Não se nacionaliza porque sim, como se quer fazer crer. Decide-se tendo em conta as empresas que se recusam a colaborar com o desenvolvimento do país; que rejeitam cumprir a prioridade do fornecimento de bens e serviços aos venezuelanos; que especulam nos preços, como no sector alimentar. Neste último caso, primeiro adverte-se a empresa, e só depois se avança para a nacionalização, a qual se processa através da compra, e não da expropriação, como também se diz.

Tudo isto tem subjacente uma linha política de resposta às investidas contra-revolucionárias, como as que se passaram igualmente no sector financeiro. Muitos bancos davam sinais de poderem destruir o sistema na Venezuela. Há cerca de uma semana, foi nacionalizado o 6.º banco venezuelano, e a razão foi simples: estava totalmente falido porque os proprietários sacaram os recursos existentes, os depósitos das pessoas, e levaram esse capital para fora do país.

No que diz respeito aos bancos e às empresas nacionalizadas deixa-me sublinhar um outro aspecto. Actualmente, os responsáveis por fraudes ou operações danosas são levados perante a justiça, como deveria acontecer em qualquer país democrático. Acabou a impunidade. Está claro que muitos fogem para os EUA ou para a Europa, onde encontram cobertura face aos pedidos de extradição solicitados pelas nossas autoridades judiciais.

Transformações profundas

O Partido Comunista da Venezuela defende a implementação de uma nova Lei Orgânica do Trabalho e do aprofundamento do processo de constituição dos Conselhos Socialistas. Qual é o objectivo dessas propostas?

A Lei Orgânica do Trabalho ainda não foi aprovada no Parlamento. O camarada Oscar Figuera [secretário-geral do PCV] era presidente da comissão parlamentar que preparou o anteprojecto, mas a proposta foi travada. E porquê? – porque já pressupõe uma fase de transição do capitalismo para o socialismo. Na Venezuela, ainda não estamos no socialismo. Eu diria mesmo que estamos muito longe, mas, apesar dessa análise, estamos em pleno processo revolucionário visando a superação do sistema capitalista. Esta não é uma lei reformista.

Então a luta que travamos, no parlamento, com os trabalhadores, nas fábricas e nas ruas, é para que essa lei seja aprovada. A nova Lei Orgânica do Trabalho está interligada com a outra realidade de que falaste, a da constituição dos Conselhos Socialistas de Trabalhadores, cujo objectivo é não apenas avançar nos direitos de quem trabalha, mas no controlo operário dos meios de produção.

Mas já existem vários exemplos da participação dos trabalhadores na gestão das empresas na Venezuela…

Sim, já existem, mas resultam do trabalho político do Partido Comunista, da pressão popular e dos trabalhadores, do aumento da consciência das massas que levou à exigência de que, nas empresas do Estado, se configurassem alterações nas relações de produção.

O caso emblemático é o da SIDOR, a siderurgia nacional, onde nas últimas semanas foi eleita, pela primeira vez, a direcção da empresa pelos próprios trabalhadores. Antes era o governo a designar os directores, que habitualmente nem sequer pertenciam aos quadros da empresa. Hoje, há essa visão de que são os trabalhadores que elegem e supervisionam a administração, o que é já um grande avanço nas normas de um Estado capitalista no qual a maioria das empresas ainda conserva as relações de produção próprias desse sistema.

São, portanto, experiências que decorrem na Venezuela. Através delas, estamos a abrir caminho à construção de uma democracia avançada, a qual implica que os trabalhadores controlem os meios de produção e intervenham nas decisões respeitantes às empresas.

Reforçar o Partido entre os trabalhadores

Numa entrevista feita na Festa do Avante! de há dois anos, o camarada Yul Jabour sublinhava que uma das orientações centrais do PCV era o reforço do Partido nas empresas. Essa orientação mantém-se?

Sim, continua, a par da luta pela unidade sindical. Deixa-me voltar um pouco atrás para que se perceba.

Nos anos 80 e 90 a burguesia conseguiu destruir o movimento sindical de classe na Venezuela. Quando iniciámos a revolução bolivariana, restavam grupos muito corruptos, que de nenhuma forma representavam os trabalhadores.

Em 2001, procurou-se criar uma confederação sindical e nesse momento o PCV fechou as portas do seu próprio sindicato, estrutura que surgiu na sequência da ilegalização do Partido nos anos 60. Fizemo-lo a favor da unidade sindical.

Depois disto, houve um período em que fomos praticamente excluídos. É nessa sequência que fundámos a Corrente Classista dos Trabalhadores «Cruz Villegas», um instrumento de acção em prol do reforço da unidade sindical.

No ano passado realizou-se um congresso da União Nacional dos Trabalhadores da Venezuela (UNT) donde saíram avanços sólidos, pesem embora as dificuldades do facto de ali estarem representadas várias correntes ideológicas.

O PCV tem nesta área duas tarefas fundamentais: a primeira e prioritária é a construção do movimento sindical de classe. Esta é a tarefa dos comunistas, não do governo. Nesse sentido, tomámos medidas concretas para concentrar e tornar mais eficaz o trabalho.

Em segundo lugar, definindo-nos como partido da classe operária, estamos empenhados na construção do Partido dentro das empresas. Pensamos que num processo político revolucionário as reivindicações de carácter sindical nem sempre são suficientes. É necessário ter Partido nos locais de trabalho para dar as respostas que se impõem, é preciso reforçar e aumentar o número de células de empresa. Esta é a nossa linha e até agora avançamos com sucesso.

Claro, considera que na Venezuela, esse é um trabalho encoberto, porque nas empresas somos obrigados a trabalhar na semiclandestinidade.

Essa semiclandestinidade é forçada pelo patronato?

Claro, claro. Na América Latina, assumir uma posição do género dentro de uma empresa ainda se paga com a vida. O ano passado, na Venezuela, foram assassinados vários dirigentes sindicais.

O PCV é um partido responsável e, por isso, procura proteger os seus quadros.

Campanhas sujas do imperialismo

Desde o início das transformações revolucionárias bolivarianas, a Venezuela tem sido alvo de permanentes campanhas mediáticas. O povo venezuelano tem sempre respondido com apoio crescente ao executivo de Hugo Chávez. Isso demonstra um crescimento da consciência anti-imperialista?

Sem dúvida que sim. Nos últimos 11 anos vivemos a cruel realidade da luta de classes e da ingerência imperialista.

Por exemplo, no golpe fascista de 2002, houve muitos que ficaram surpreendidos porque achavam que no século XXI esse tipo de golpes já não era possível. Amplos sectores do povo tomaram então consciência do que os comunistas vinham alertando, de que afinal os «dinossauros» tinham razão ao apelarem à vigilância.

De igual forma podemos falar da sabotagem na empresa de petróleo que se seguiu ao golpe. Faltava comida nos supermercados, os telefones falhavam, e o intuito era claro: forçar os venezuelanos a rejeitarem Chávez. De tudo isto saiu o povo vitorioso e com grande auto-estima.

Seguiram-se outras campanhas em vagas sucessivas, como a da RCTV, que não era uma questão de liberdade de expressão, como ficou provado, mas de democratização do espaço radiofónico existente para meios privados, estatais, institucionais e alternativos ou comunitários; ou a do movimento dos estudantes, apresentados como um amplo espaço mas que, na verdade, estava confinado a escassas centenas de jovens liderados por um estudante que recebia uma bolsa de uma fundação norte-americana. Os estudantes foram convidados a ir ao parlamento e apresentarem as suas reivindicações. Que outro país do mundo lhes faria isto? Não quiseram. Esfumaram-se.

Mais recentemente foi a campanha da electricidade. O tema cresceu porque se pretendia que, no próximo dia 26 de Setembro, não houvesse luz e as pessoas votassem contra Chávez. Fracassou porque o governo, embora tarde, avançou na compra de termoeléctricas. Depois desta começa outra campanha, a da alimentação. As empresas capitalistas não produzem, armazenam os géneros ou vendem-nos ilegalmente.

De tudo isto, ao contrário do que se pretendia, tem saído o povo e o processo bolivariano fortalecido. A consciência crítica das pessoas elevou-se.

Unidos nas eleições

Referiste as eleições de 26 de Setembro, como é que o PCV as vai abordar?

Durante quatro meses decorreram conversações com o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). No final, chegámos a uma aliança entre socialistas e comunistas na maioria dos Estados e distritos. Este acordo foi muito importante porque criámos um bloco comprometido com as transformações revolucionárias.

Em 22 regiões num total de 24, nós inscrevemos os candidatos do PSUV e o PSUV inscreveu os do PCV, quer nas listas para a Assembleia Nacional, quer para o Parlatina (Parlamento Latino-Americano).

Nas eleições para o parlamento venezuelano, queremos alcançar uma maioria de dois terços para podermos avançar com as necessárias alterações às leis fundamentais, tais como a Lei Orgânica do Trabalho, de que já falámos.


Fonte: jornal Avante!

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sábado, 7 de fevereiro de 2009

O PAPEL DA CIÊNCIA NA EMANCIPAÇÃO DA HUMANIDADE

Desde a queda da URSS o movimento revolucionário entrou em crise, vários partidos importantes (como o PCI e o PCB/PPS) abandonaram os ideais revolucionários. A vitória do capitalismo sobre a primeira experiência de uma nação dirigida pelos trabalhadores colocou-os na defensiva. Essa derrota forçou os revolucionários a repensarem sua atuação e a fazerem uma análise mais profunda sobre a primeira era das experiências socialistas.

Hoje, no fim da primeira década do século XXI (Quase 20 anos desde a queda do socialismo soviético) seria um erro dizer que ainda estamos na mesma forma defensiva quanto estávamos na década de 90, Fukuyama, que proclamou o "fim da história" já fez sua autocrítica, com a crise mundial o neoliberalismo demonstrou sua ineficácia, várias organizações socialistas revolucionárias (ainda que não se declarem marxistas) ganham força pelo mundo, algumas obtiveram até o poder político em algumas nações na América Latina (como na Venezuela e na Nicarágua), outras "velhas de guerra" da primeira era das revoluções socialistas (como Cuba e China) dão fortes exemplos da superioridade do socialismo sobre o capitalismo, além claro, da subida dos comunista ao poder no Nepal, através de um partido marxista-leninista, ligado ao movimento maoísta internacional. A grande prova de um momento mais propício para a organização e a propaganda revolucionária é a drástica diminuição da resistência que o socialismo tem encontrado entre a população. Porém, seria outro erro gravíssimo acharmos que tudo isso é sinal de uma ofensiva, ainda temos que superar muitos erros e insuficiências, desenvolver a teoria socialista é um passo fundamental, colocar o socialismo científico no século XXI é armar os trabalhadores do mundo inteiro para derrubarem o capitalismo neste século, ou colocamos século XXI na lápide do capitalismo ou toda a humanidade vai para cova.

Superar os dogmas é sempre uma questão polêmica, de um lado você tem pessoas que pensam mais como fanáticos religiosos do que como socialistas científicos, de outro, você tem oportunistas doidos para terem uma chance de mostrar sua verdadeira face e substituir o programa revolucionário pelo revisionismo pequeno-burguês. Ser comunista é arriscado, isso não pode ser desculpa para fugir da luta.

Ampliar as áreas de estudos do materialismo dialético é um passo importante, temos grandes acúmulos em áreas como economia, filosofia ou história, porém, não basta termos apenas um programa de superação da sociedade que se baseiam neste tripé (Marx e Engels foram muito além destas áreas), temos que ser técnicamente superiores à burguesia em tudo! Um bom exemplo é a própria superação do feudalismo pelo capitalismo, além de um programa mais avançado, os iluministas deram grandes contribuições para o desenvolvimento da sociedade em todas as ciências.

A produção do conhecimento não é algo abstrato, além das classes, é algo que serve à interesses, enquanto a burguesia monopolizar o conhecimento científico irá investir no que lhe dará lucro ou facilitará sua dominação (um bom exemplo são so projetos de carro movidos à vapor que não conseguem financiamento). Devemos nos aprofundar em outras ciências e demonstrar ao mundo quem é capaz de causar o desenvolvimento necessário.

Este não é um problema de hoje, todos os países socialistas tiveram problemas quanto à falta de pessoas em diversas áreas do conhecimento científico, custando-lhes muito caro para formar ou importar quadros com o conhecimento necessário.

Einstein, um dos grandes gênios do século XX, era um socialista declarado, pouco se divulga na mídia burguesa seus ideais emancipatórios (o artigo "POR QUÊ O SOCIALISMO?" pode ser acessado em várias línguas no site www.marxists.org) ou o papel que as descobertas darwinistas sobre a evolução tiveram na derrocada das supostas teorias científicas que defendiam a escravidão e a "superioridade de raças" entre os humanos.

São inúmeros os textos de Marx e Engels que falam de assuntos relacionados à outras áreas da ciência (além das principais abordadas por estes: economia, história e filosofia), como a biologia, a química e etc. Vejamos alguns exemplos:

*Marx - Capital e tecnologia - (1863)

"Deste modo, os processos produtivos se apresentam pela primeira vez como problemas práticos, que só se podem resolver cientificamente. A experiência e a observação (e as necessidades do processo produtivo) alcançam assim pela primeira vez um nível que permite e torna indispensável o emprego da ciência."

*Engels - Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem (1876)

"Há muitas centenas de milhares de anos, numa época, ainda não estabelecida em definitivo, daquele período do desenvolvimento da Terra que os geólogos denominam terciário, provavelmente em fins desse período, vivia em algum lugar da zona tropical — talvez em um extenso continente hoje desaparecido nas profundezas do Oceano Indico — uma raça de macacos antropomorfos extraordinariamente desenvolvida. Darwin nos deu uma descrição aproximada desses nossos an-tepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba, orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas."

*Engels - Introdução à dialética da natureza (1876)

"Não se pode falar de compostos de elementos químicos nem sequer à temperatura que tem atualmente o Sol; observações posteriores sobre o Sol demonstraram-nos até que ponto o calor se transforma em eletricidade ou em magnetismo; já se acha quase provado que os movimentos mecânicos que se operam no Sol são devidos exclusivamente ao conflito entre o calor e a gravidade."

*Engels - Discurso no funeral de Karl Marx (1883)
"Mas em cada área isolada que Marx conduzia pesquisa, e estas pesquisas eram feitas em muitas áreas, nunca superficialmente, em cada área, inclusive na matemática, ele fez descobertas singulares."
"Tal era o homem de ciência. Mas isso não era nem de perto a metade do homem. A ciência era para Marx um impulso histórico, uma força revolucionária. "



Precisamos de muitos economistas e muitos historiadores, precisamos aprender e desenvolver muitas coisas na economia e na história, mas também precisamos formar químicos, físicos, biólogos, psiquiatras e etc...Imaginem o quanto a biologia e a psicologia podem oferecer em matéria de estudos quanto ao comportamento humano, a formação da consciência, os males do capitalismo...Mas o esforço deve ser coletivo, não precisa estar formado numa área para desenvolver sobre esta, sejamos ousados.

Com o desenvolvimento histórico, hoje, é muito mais diícil para alguém acumular conhecimento em diversas áreas, sabemos disso. A especialização já é algo normal, porém somos milhões pelo mundo! Não precisamos falar sempre da mesma coisa!

Este será o objetivo deste blog, apresentaremos diversas análises feitas sob o materialismo dialético em várias áreas, se você quiser contribuir é só deixar o e-mail num comentário.

Pela revolução, pela ciência, pelo socialismo!


Escrito por Diego Grossi em fevereiro de 2009

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

SOBRE UMA ÉTICA PROLETÁRIA NECESSÁRIA


Desde que conhecemos a sociedade, enquanto forma organizada da espécie humana, que os valores éticos têm jogado um papel fundamental na sua edificação. Mas, nós marxistas, acreditamos que esta mesma ética esta submissa aos interesses das classes, que estão em constante luta, é mais uma das armas utilizadas, parte fundamental do controle hegemônico de parte da sociedade sobre a outra. O objetivo deste texto não é travar polêmicas que considero menores (como a distinção entre moral e ética, prefiro trabalhar como se fossem uma única coisa e lembrando que ambas tem o mesmo significado, uma em grego e outra em latim) ou expor um histórico da construção destes conceitos (achados facilmente em qualquer pesquisa de internet), mas buscar a construção de valores que norteiem a ação dos comunistas neste século, valores já presentes no seio do proletariado, que muitas vezes ficam ofuscados pela dominação dos valores burgueses ou pequeno-burgueses, mas que vão se construindo ao longo da luta destes, de seu cotidiano de exploração. E ir demonstrando como estes princípios foram e serão fundamentais para a luta concreta pelo socialismo. Ouso dizer, sem a percepção destes, dificilmente a vanguarda poderá estabelecer uma ligação mais forte com o proletariado.


QUAL A REAL NECESSIDADE DE ENCONTRARMOS A ÉTICA PROLETÁRIA?

Com a crise no qual mergulhou o marxismo, houve uma perda grande de perspectiva. Algumas idéias já derrotadas voltam à pauta e precisam mais uma vez, serem desmascaradas e outras surgem de novos desafios.

Como forma de se proteger dos ataques ideológicos da burguesia, muitos se fecharam e acabaram ossificando princípios que norteavam uma luta que passou a ocorrer de outras formas. Outros, oriundos ideologicamente da pequena-burguesia aproveitaram para difundir suas teorias anti-proletárias e encontrando muitas pessoas perdidas, acabaram por sendo vitoriosos, levando diversos partidos históricos pelo mundo ao peleguismo.

Muitas destas questões ainda estão presentes e influi diretamente na luta cotidiana. A burguesia também aprendeu com mais de um século de luta, utiliza de diversas armas para manter o proletariado longe de sua vanguarda.

O combate ao parlamentarismo deve ser travado do mesmo jeito que devemos travar contra o esquerdismo, que nega na prática a participação neste, por princípios éticos claramente pequeno-burgueses, que não enxergam a diferença entre tática e estratégia. O combate ao assistencialismo deve ser travado do mesmo jeito que devemos travar o combate contra o sectarismo, que não reconhece nestas, muitas manifestações que podiam ser utilizadas a favor da revolução.

Como vanguarda do proletariado, nossa ações devem estar em consonância com este, para isso devemos conhecer profundamente as novas formas de luta que devemos travar no séc. XXI, as exigências históricas e quais tipos de valores devem ser combatidos e quais devem ser estimulados.


OS PRINCÍPIOS ESTÃO LIGADOS AS NECESSIDADES DE CADA TEMPO

Para travarmos esta discussão, temos que ter claro, a nossa ética é aquela que norteia a nossa atuação na construção de uma sociedade comunista, sociedade esta organizada de forma coletiva, ou seja, controle coletivo sobre a produção, inexistência da propriedade privada dos meios de produção, inexistência de classes sociais e igual valorização do trabalho material e intelectual. Esta sociedade deverá ser regida por princípios que permitam a existência desta sem o controle do estado, a existência do novo homem consolidado, com ampla participação voluntária nos objetivos coletivos, tendo claro que o desenvolvimento individual e coletivo deve ser um objetivo permanente. Valores como a igualdade real de direitos, a liberdade de expressão, a ajuda mútua, a valorização do trabalho e o aperfeiçoamento permanente do ser - humano serão condicionantes para a existência de tal sociedade, e só poderão ser alcançados com muito tempo de luta contra os valores da sociedade burguesa.

Esta luta contra a burguesia e seus valores pode ser divida, em grosso modo, em duas etapas: Na primeira, os valores burgueses são hegemônicos e ela detém o poder estatal, têm todos os mecanismos para a sua promoção e manutenção, ou seja, a sociedade capitalista. Na segunda, o proletariado está no poder e deve ir abolindo gradualmente os valores burgueses que entravam o desenvolvimento da nova sociedade e criam um campo fecundo para a restauração do poder político burguês.


OS DESAFIOS DURANTE O SOCIALISMO

O principal desafio da sociedade socialista é, numa primeira etapa, estabelecer a hegemonia do proletariado num determinado local, garantindo e ampliando o poder estabelecido na tomada do poder, para em etapas posteriores ir enfrentando novos desafios ligados a criação da sociedade acima exposta. Desafios estes que se darão no seio do próprio proletariado, que deverão se forjar dia a dia como os homens do futuro e ao mesmo tempo, serem extremamente combativos, para o enfrentamento constante com a burguesia, que será outro desafio em si.

Valores como uma disciplina rígida, espírito de sacrifício, confiança, solidariedade internacional, amor a sua pátria e a crença inabalável da vitória socialista são fundamentais neste período de luta, tendente a ser historicamente longo, cheio de idas e vindas, com o avanço e o retrocesso da luta revolucionária, onde cada país que a revolução conquista é um motivo a mais para o aumento da ameaça imperialista, países estes que sofreram ataques em todos os campos, políticos, ideológicos, econômicos e militares. A humanidade deverá provar para si mesma que é digna de um mundo quase perfeito. E cada povo que se libertar deverá mostrar para os outros que esta sociedade diferente é possível.

Temos belos exemplos de que isso é mais que possível, é real. Olhemos para o povo cubano hoje, que grande é o exemplo de um povo que há quase meio século resiste aos mais diversos tipos de ataque do imperialismo estadunidense. Uma ilha, pobre materialmente, localizada do lado do maior império da história, resistiu e resiste a ataques militares diretos, conspirações e espionagens, propaganda negativa espalhada para o mundo todo e um bloqueio econômico desumano que dura décadas. Só isso, seria o suficiente para encantar qualquer um, só que ainda tem mais. Neste meio século de luta, o povo cubano não foi responsável apenas pela sua emancipação, mas ajudou a libertação de diversos povos do 3º mundo. O principal ícone de seus valores, Ernesto Che Guevara, iria até o fim, pagaria com sua vida pela libertação dos povos, tombando fisicamente nas selvas bolivianas em 1967. Na África, o melhor exemplo é Angola, país que recebeu ajuda militar na luta por sua independência.

Outro belo exemplo que ainda resiste, é o exemplo dado pelo povo vietnamita. Quantas lágrimas de sangue o império estadunidense chora até hoje por esta derrota. Quem diria que um país minúsculo, com um potencial bélico quase medieval, poderia derrotar diretamente a tecnologia e a crueldade da guerra estadunidense... Quem diria que aquele milenar povo, que resistiu a tantos impérios em sua história, pudesse resistir ainda mais... Quem diria que aqueles pequenos seres-humanos (em estatura) derrubariam gigantescos soldados, massas de músculos, produto de muito McLanche e muita malhação.. Quem diria que aquele pobre povo (economicamente) resistiria às destruições em massa de sua principal fonte de alimentação, o arroz e da poluição de sua água... O que parecia impossível se tornou realidade. Só uma força é capaz de driblar tantos cálculos reais, a crença no socialismo como único sistema capaz de libertar a humanidade.

Mas antes destes, a humanidade já pode conhecer o espírito de sacrifício do povo soviético. Este texto se tornaria imenso se fosse citado cada exemplo durante os anos da Guerra Civil, basta lembrar, que valorosa foi a luta deste povo, que sacrificou 20 milhões de seus filhos na luta contra a máquina de guerra nazista, na luta pela emancipação da humanidade e por sua pátria. Como a humanidade deveria agradecer a cada um destes soldados, que iam para a guerra sabendo que nem fuzis poderiam ter. Se o Armageddon é real, este aconteceu nos dias frios da batalha de Stalingrado. 70% da máquina de guerra nazismo, pior face do capitalismo demonstrada até hoje, foi destinada ao combate direto a URSS, ou seja, foi destinada a combater o socialismo.

Muitos outros povos deram seus exemplos, assim como esses, demonstraram que o socialismo não é só um sonho, é uma necessidade.

Que num futuro próximo, como pregou Che Guevara, possamos estar assistindo a um, dois, três, muitos Vietnans.


PRINCIPÍOS NECESSÁRIOS PARA A LUTA NO MUNDO DE HOJE

Socialismo ou Barbárie

Vivemos numa sociedade que beira o caos. Cada dia que passa, ficamos sabendo de um caso mais absurdo que o outro, coisas que nos chocavam há pouco tempo atrás, como pessoas da mesma família se matando ou bebês abandonados para morrer pelas mães já se tornaram até previsíveis, pois as coisas vão se aproximando mais de um filme de terror a cada dia. 3 exemplos podem ilustrar bem o que quero dizer. O rapaz que cortou o braço da namorada com uma espada ninja no Rio de Janeiro, por ela não querer reatar o relacionamento com ele, a mulher estadunidense que matou a filha com menos de 1 ano queimando-a no forno microondas e a mulher que matou seus 2 filhos com uma serra elétrica no estado de São Paulo.

Tudo isso indica que os valores que regem nossa sociedade não estão dando conta de manter a sociedade organizada, mesmo que para fins de uma pequena minoria. Os valores nos quais o capitalismo nasceu, aqueles proclamados pela Revolução Francesa, de liberdade, igualdade e fraternidade já se demonstram inviáveis se for mantido este sistema, subjetivamente, gera nos seres-humanos uma frustração com a vida imensa, pois são educados tendo em vista que a felicidade é “X”, mas esse “X” vai se tornando impossível, alguns enlouquecem (como estes citados), outros entram em depressão (que vem crescendo drasticamente nos últimos anos) e ainda sim, tem alguns que acham o conforto, esperando a felicidade no pós-morte, um dos últimos mecanismos do próprio sistema capitalista que ainda funciona, uma religião.

Talvez nunca antes a questão “socialismo ou barbárie” foi tão real. O capitalismo realmente não dá mais conta de resolver diversos problemas. Além de entravar as forças produtivas, este passa as destruir, não destrói dó a humanidade, mas sim o mundo em que vivemos. A única saída para isso parece ser pelo menos na teoria, simples, a revolução socialista, a tomada do poder por outra classe que tenha interesse e a necessidade de resolver estas contradições. Mas infelizmente, uma minoria, composta de intelectuais e militantes, acredita nisso realmente. Um paraíso composto por belas nuvens e a paz eterna da alma tem muito mais adeptos do que a revolução proletária.

É óbvio que todos os mecanismos que a burguesia possui para anular a esperança pelo socialismo somado com a queda da URSS e a crise do marxismo são essenciais para esse isolamento, mas não adianta ficarmos chorando pelo leite derramado ou contemplando nossa desgraça eternamente, temos que arrumar soluções concretas e sair das análises simplistas das fórmulas feitas.

No mundo em que vivemos, coisas simples, naturais, que não são apenas valores que servem para a manutenção do domínio de classes e sim para a manutenção da humanidade enquanto espécie, como o amor aos filhos, a aversão ao sofrimento alheio, a valorização da natureza, etc... Estão se perdendo, qualquer coisa que vise combater isso passará a ser absorvido bem pelas massas, pois é necessário! A burguesia apresentará as saídas dele, que não vão além de resolver as necessidades imediatas, não resolvendo o problema na raiz, já que a raiz do problema é sua própria dominação. Nós temos que apresentar as nossas, mas demonstrando-a superior no dia a dia, na prática, não só no discurso.

Romper com o sectarismo

É difícil admitir que também erramos, é mais fácil jogar a culpa na força do adversário no que na nossa fraqueza, mas é fato, grande parte da adesão que as religiões e as ONGs têm hoje, são frutos da capacidade de modificação da realidade concreta, realidade que mesmo imediata, beira o caos. Qualquer ação que venha diminuir o sofrimento generalizado e adiar o caos que parece estar a cada esquina passa a ser bem vista e a receber adesão da parte mais avançada da sociedade espontânea, que não está envolvida com nenhuma luta mais geral. Poderiam dizer que estes valores humanistas, de aversão a fome, a miséria, manutenção do meio ambiente e etc. são influentes por causa do cristianismo. Sem dúvida que o cristianismo ajuda bastante, e sem dúvida também, que por ter estes valores, foi a religião que teve entrada popular que a burguesia necessitava para garantir sua dominação.

Mas não podemos esquecer que a modificação da realidade concreta é um fator fundamental para demonstrarmos a nossa capacidade de luta para as massas, para ganharmos a sua confiança e que devemos sim, estimular esses valores na militância socialista, como dizia Che Guevara, a capacidade de se indignar com o sofrimento de alguém é a qualidade mais bela de um comunista, jamais devemos perdê-la! Não adianta ficarmos fazendo belos discursos, debates infinitos que demonstram por A+B que o socialismo é a saída, garanto-lhes que para boa parte do proletariado brasileiro o resultado do jogo no fim de semana é bem mais atrativo e vai deixá-lo bem mais feliz. Chega de não fazer nada nos sindicatos porque estamos em defensiva estratégica e não podemos fazer uma greve, façamos uma campanha que arrecade alimentos para os mendigos na rua da fábrica, no qual todos os trabalhadores que por ali passam se indignam. Vamos utilizar as armas que o capitalismo criou para nos afastar da massa contra ele mesmo. Não é difícil, depois de cada ação é só culpar o capitalismo por aquilo, mostrando que o que foi feito amenizou a situação de um punhado de sofredores, mas se quisermos resolver o problema de milhares a saída é o socialismo. O pré-conceito deve ser vencido. Se os comunistas acreditam que nesta fase devemos mobilizar grandes massas, não podemos ficar presos a velhas formas, restringindo qualquer saída criativa, usando falácias pré-conceituosas.

Um belo exemplo é a própria revolução cubana, que para ganhar adesão do povo, realizava a alfabetização dos camponês.

Os valores são construídos dentro de um contexto histórico, uma necessidade real

A realidade concreta vai empurrando para a criação de valores no subjetivo dos mais pobres, como a solidariedade, o amor, a valorização do trabalho e a ajuda mútua, principalmente em povos latino-americanos que tem essa tradição de povos mais “acalorados”, valores que não são estáticos, existem e pronto, nada disso, são como qualquer idéia, podem mudar, tem vários níveis de intensidade, mas existem, estão aí, a existência destes contrapõe a existência do capitalismo, um não vive em paz com o outro, mas para que amplas massas possam traduzir isso em forma de luta política, a vanguarda é necessária. Deve cumprir o seu papel histórico, que é elevar a consciência das lutas pela modificação da realidade imediata (seja econômica, como a greve, seja no grêmio estudantil ou assistencialista) para a luta maior, historicamente consciente, ligando uma a outra dialeticamente.

Ser o exemplo destas sociedades é fundamental para que a vanguarda possa acreditar e guiar os oprimidos. Os comunistas devem ser e demonstrar ser os mais humanistas, os mais abnegados, os que conservam no dia a dia valores como a honestidade, o amor e a fraternidade. Devem ser capazes de mostrar que sua revolta não é apenas o desejo de sangue e guerras, mas sim que é a indignação que cada um tem contra a fome do vizinho, o desemprego do amigo e o pré-conceito que sofre, elevado milhões de vezes.

Como pregar uma sociedade diferente, se dentro da própria organização encontramos fofocas, apoio a desonestidade, disputa de espaço, indisciplina, preguiça, burocratismo e voluntarismo. Valores estes que vão totalmente contra a realidade do proletariado, que fazem com que o proletariado não se reconheça enquanto parte daquilo, pois aprendeu com a vida, que a melhor forma de viver não é aquela.

O capitalismo já não consegue resolver os problemas da humanidade. A busca pelo o que é realmente certo e o que é errado, ganha espaço em todos os lugares, livrarias, canais de TV, internet... As pessoas precisam de regras de convivência, pois sem elas, a barbárie se instaurará e teremos sorte se sobrar alguma coisa da raça humana. Temos que ser capazes de apresentar a nossa proposta e colocá-la a prova diariamente, construindo desde já seres-humanos que a coloquem em prática, que tenham na sua consciência a preservação de valores fundamentais para a existência da espécie e que sejam capazes de levar até o fim a luta pelo socialismo. Não basta dar esmolas aos mendigos, nem não jogar lixo no chão. Mas também já não basta ser um socialista por espírito de aventura, por ser legal. Deve-se ser socialista de coração, ou seja, dar esmolas aos mendigos, não jogar lixo no chão e abrir mão de sua própria vida na única solução capaz de resolver completamente estes problemas, a revolução socialista. É irreal acreditar que podemos ser dentro da sociedade capitalista o mesmo homem da sociedade socialista, temos que ganhar dinheiro, temos que fazer alianças com setores da burguesia, enfim, mas é também irreal, acreditar que seremos vistos como alternativa se não colocarmos em prática o que for possível, se não exercermos o socialismo diariamente em nossos atos, sempre tendo como objetivo a tomada do poder político. Engels é um bom exemplo, tinha uma origem burguesa, não deixou de ser (imaginem o que seria de Marx sem a ajuda financeira de Engels), mas implementou o que pode, para amenizar a exploração dos trabalhadores nas fábricas de sua família. Os fins justificam os meios, desde que os meios não atrapalhem os fins, e meios que nos afastem do proletariado estão em total contradição com nosso fim maior, o comunismo.


Escrito por Diego Grossi em Setembro de 2008



Bibliografia:

Altamiro Borges: O papel estratégico do proletariado.
Augusto Buonicore: A construção do homem no jovem Marx.
Enver Hoxha: Sobre o caráter ideológico dos mexericos.
Ernesto Che Guevara: O socialismo e o homem em Cuba; O que deve ser um jovem comunista.
István Meszaros: Socialismo ou Barbárie.

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ROCK`N ROLL - QUAL REBELDIA QUEREMOS?


O recente caso do cantor punk cubano Gorki Áquila, preso em Cuba após alguns anos propagandeando a contra-revolução, por diversos delitos (drogas, violência, etc.) agitou o mundo do rock, é importante sabermos e divulgarmos que Gorki possui o apoio de diversas pessoas nos EUA que vendem seus discos, que entre diversas besteiras, faz claras defesas do regime fascista de G.W Bush.
Uma das acusações de Gorki é que o regime cubano persegue o Rock, uma grande mentira, provada pelos shows recentemente realizados por duas das mais famosas bandas, Audioslave e Sepultura.

O Rock sempre foi caracterizado por sua rebeldia, porém, nos últimos tempos, perdeu um pouco a sua identidade, sendo que a rebeldia que um dia cantou e despejou lágrimas contra o massacre no Vietnã hoje as derrama muito mais por cachaça e amores impossíveis. Este movimento cultural, expropriado pela burguesia assim como tantos outros (lembremos das diversas atividades culturais anti-comunistas financiadas pela CIA), é conhecido no mundo todo até hoje. Reproduzimos na integra um texto de Freddy Stock, publicado no site da Juventude Comunista do Equador (http://www.jcecuador.org).


----TAMBIEN PELEAMOS POR VIETNAM----

El peor enemigo de la Casa Blanca estaba en su país. Tenía forma de rebelión juvenil, de chicos que seguían ídolos con pelo largo y guitarras eléctricas que llamaban a detener la guerra y amar la paz. La contracultura embrujada por el rock, jugó un papel fundamental en el fracaso político norteamericano de invadir Vietnam.

Nuestro compañeros de Wooodstock enseñaron cómo se debe vivir en el mundo: sin odio, sin guerra.

Después de las bombas y el aire incendiario del Napalm. Después de los cadáveres de adolescentes, del fuego derritiendo las pieles, las carnes.
Después de toneladas de muerte arrojadas sobre la selva de Vietnam, vino Jimi Hendrix a pararse en Woodstock interpretando el Star Spangled Banner. El himno de los Estados Unidos salió deformado y tormentoso de la guitarra del chamán negro. Su sonido era el de un país aullando de dolor,revolcado en el suelo como víctima de un fogonazo salido de entre los árboles.
A esas alturas, en agosto de 1969, el rock´n roll estaba convertido en una muralla imposible de derribar por la campaña belicista del gobierno norteamericano. El rock, que había nacido como rebelión básicamente generacional, primero, y contracultural, después, había tomado ribetes ideológicos peligrosos cuando decidió combatir a la Casa Blanca. Ya Dylan había dicho que los tiempos habían cambiado, ya los Who habían gritado que preferían morir jóvenes que siendo viejos decrépitos. Pero ahora se abría un nuevo frente de batalla, allá lejos, donde miles de adolescentes morían sin saber por qué. Eran los sacrificados del alma, según Santana; los hijos de la fortuna, según Creedence Clearwater Revival; los voluntarios, de Jefferson Airplane; los niños de Estados Unidos, según ironizó Bruce Springsteen una década más tarde.
La peor batalla de Washington estaba en su propia casa, donde el movimiento antibélico tenía cuerpo y organización. Ahí, el descontento hizo surgir la figura del antihéroe cuyo reflejo social más reconocido fue el hippismo. El antihéroe tomaba forma de Lennon gritando por Nueva York que la guerra terminaba si tú lo querías o de Peter Fonda subido arriba de una moto en el filme Easy Rider, recorriendo el país sin un sentido práctico, sólo drogándose, sólo viviendo, sólo teniendo en el norte el arcoiris de la "paz y el amor".
La guerra de Vietnam fue una chispa caída en un movimiento contracultural ya transformado en bencina. Desde hacía dos décadas, la rebelión juvenil buscaba nuevos senderos de expresión y esta guerra no hizo más que clavar una bandera contra la cual pelear. O como dice David Crosby, de la mítica banda Crosby, Stills, Nash and Young, "Vietnam lo cambió todo porque cambió la manera en que nosotros comprendíamos todo". Crosby acaba de lanzar el libro Stand and Be Counted, que habla precisamente de la intensa relación de los artistas pop con la política. Y, en esto, el bigotudo guitarrista y también fundador de The Byrds tiene experiencia al haber sido uno de los más fervientes detractores de la guerra de Vietnam y de las formas siniestras que con ella tomaba la política contingente de Estados Unidos. Tras el asesinato de Robert Kennedy en 1968, por ejemplo,escribió la canción A Long Time Gone, mientras que su compañero de banda,Neil Young, le dedicó Ohio a los cuatro chicos que fueron muertos en una escuela de Kent, en 1970, por efectivos estatales. La banda grabó esta canción al día siguiente del hecho y, una semana después, ya se escuchaba rabiosa en las radios del país.
La fuerza de los amigos Los principales íconos del pop formaron un sólo batallón contra la guerra. La música reaccionó instantáneamente, no así el cine que recién tomó como motivo a Vietnam una vez que el conflicto terminó. Hollywood,acostumbrado a ensalzar el patriotismo con películas de la Segunda Guerra Mundial, Corea o la Guerra Fría, estaba lejos de hablar derechamente contra Vietnam cuando el rock se le paró enfrente. Los mitines organizados por Lennon fueron certeros. O Hendrix que en su calidad de ex militar se plantaba frente a la multitud para entonar Machine Gun y dedicársela a "los soldados que peleaban en Chicago, Nueva York y, por supuesto, a los que caen en Vietnam".
Y allá, lejos entre la selva, los muchachos se conectaban con sus familias, con los recuerdos, fumando Marlboro, marihuana y escuchando rock. Hendrix, Creedence, The Doors, fueron la banda sonora de un sueño por cumplir: que la pesadilla termine y que alguien detenga esta estupidez. Dicen que en 1975, cuando ya el Napalm se había enfriado, las tropas cantaban llorosas Wéve Gotta Get Out of This Place, de los Animals. Y algunos, los más duros, sacaban un disco de Woodstock, ese festival que se había celebrado en Nueva York hace seis años para protestar contra toda esta porquería. Lo ponían a la intemperie para bailar el último rock antes de subir al helicóptero rumbo a Norteamérica.
La canción era para bailarla metidos hasta las rodillas en el barro,derrotados, pero felices. I Go Home, de Ten Years After. Me voy a casa,nena. Sí, me voy a casa.

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ATAQUES DE HACKERS DEMONSTRAM UMA NOVA FORMA DE LUTA DE CLASSES


Após o site do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU - www.pstu.org.br) ter sido atacados por hackers, foi a vez do Portal Vermelho (www.vermelho.org.br), maior site da esquerda brasileira, sofrer com os ataques. Após 4 tentativas a equipe do portal decidiu bloquear o acesso ao site. A 1º e a 3º tentativa foram frustradas pela equipe, porém a 2º conseguiu invadir o site, sendo que houve pequenos danos, como títulos desaparecidos, textos incompletos, etc, o conteúdo do site não foi modificado. A equipe técnica está tentando resolver os problemas, sendo que após a 3º tentavia já haviam bloqueado acesso a algumas áreas do site, como o Fala Povo.

É um alerta para a esquerda, pois não podemos ficar presos as formas já ossificadas de luta. A internet representa um espaço enorme para a luta, não apenas nos confrontos no campo das idéias, mas também nos confrontos "ilegais". A internet foi criada como arma durante a 2º Guerra Mundial pelos EUA e nos últimos anos se tornou uma febre, não existe um bairro popular nas grandes e médias cidades brasileiras que não possui uma Lan House.

No que concerne a luta legal, a internet é uma arma que já vem sendo bem utilizada (a exemplo das lutas encampadas pelos defensores do Software livre e o caso citado acima, do incomodo demonstrado com o site " vermelho"). Com a grande mídia totalmente dominada pela burguesia, esse meio de baixo custo financeiro, divulgação ágil e difícil controle (já que se desenvolve com muita velocidade é muito difícil que meios de censura possam acompanhar) é um vasto campo onde a resistência ao imperialismo deve atuar.

Quanto à luta clandestina as ferramentas disponíveis são gigantes, desde a espionagem até o controle direto de objetos reais. A criatividade típica do povo brasileiro também é algo importante, lembrando que nossos hackers são considerados uns dos melhores do mundo, ao lado dos israelenses.

A expansão da internet é mais que um simples fenômeno cultural, e sim, consequência direta da necessidade do capital encontrar novas formas de se expandir. Nossa tarefa é embarcar nesta onda e canaliza para o projeto revolucionário.


Diego Grossi - 2008

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REVOLUÇÃO NO NEPAL: ENTREVISTA COM PACHANDRA


A fim de se poder avaliar de uma forma objectiva a actual situação no Nepal e as posições do PCN (Maoísta), reproduzimos parte de uma entrevista realizada pelo Monthly Review Zin ao Presidente do PCN(M), camarada Prachanda, a qual teve lugar no passado dia 27 de Maio (um dia antes da decisão da nova assembleia de abolir a monarquia e criar uma república), em Kathmandu, capital da nova República do Nepal.



Monthly Review Zin - O senhor pode, dentro de pouco tempo, tornar-se o primeiro chefe de Estado do Nepal, mas os partidos parlamentares estão a criar uma série de obstáculos. Ontem, o seu partido avançou com uma proposta de 9 pontos para tentar sair do presente impasse. Quais são actualmente as principais barreiras à formação de um governo dirigido pelo PCN(Maoista)? (...)

Prachanda - Está em curso um intenso debate e uma acesa luta sobre a questão da formação do governo, e estes incidem sobretudo sobre a chefia do governo e a chefia do Estado. Estas questões envolvem uma série de problemas políticos e ideológicos relacionados com os interesses de classe defendidos por cada partido. Ontem tivemos uma discussão muito séria. Os partidos parlamentares, sobretudo o Congresso do Nepal e o partido Comunista do Nepal (UML), querem ter uma pessoa sua como chefe de Estado. Eles querem controlar, querem impedir o nosso partido de formar governo e de ocupar o lugar de chefe de Estado. (...)

MRZ - O seu partido tem um claro mandato eleitoral para formar governo. O governo de transição dos últimos dois anos funcionou na base de um consenso e de acordos políticos (...). Desde o dia das eleições o senhor realçou o empenho do PCN(Maoista) de continuar com um governo de coligação assente naquele consenso e naqueles acordos. Os maiores partidos do anterior parlamento colocaram uma série de condições para participar numa coligação governamental dirigida pelo PCN(Maoista), várias das quais contrariam os acordos existentes. Na fase actual, se um governo de coligação dirigido pelo seu partido não puder ser formado, quais serão as principais razões?

P - Eu penso que os partidos do anterior parlamento, especialmente o maior deles, o Congresso do Nepal, nunca esperaram que o nosso partido vencesse as últimas eleições. Foi por isso que celebraram tantos acordos e compromissos com o nosso partido, como o que impõe uma maioria de dois terços para mudar o governo. Nessa altura eles tinham a maioria. Mas mais tarde, depois de o nosso partido se tornar maioritário e se preparar para formar governo e ter a chefia do Estado, eles mudaram de posição. Agora defendem que uma maioria simples pode mudar o governo (Nota: como o PCN(M) tem mais do que um terço dos votos na nova assembleia, pode, de acordo com os acordos existentes, bloquear qualquer tentativa de derrubar um governo seu). (...) E pretendem também que as nossas armas sejam destruídas, que os quadros do Exército Popular de Libertação sejam desmobilizados e sejam sujeitos a qualquer tipo de treino vocacional, etc. (...) Isto vai contra o acordo de paz e vai contra o espírito da constituição interina. O maior partido do anterior parlamento, o Congresso do Nepal, mudou de posição depois de das eleições e está a mostrar-se inimigo da paz. (...) (Parece-me que na base destas posições está uma posição de classe. As classes que se opõem estão a desenvolver um novo tipo de combate. E uma coisa que deve ficar clara é que o proletariado e o nosso partido revolucionário detêm a iniciativa nesse combate. Eles (o Congresso do Nepal e a UML) são os derrotados. (...)

MRZ - Se esses partidos tiverem exito na sua pretensão de desmobilizar o vosso exército, de que forma isso poderia afectar a possibilidade de instaurar a república?

P - Seria muito difícil nessas circunstâncias. Mas eu penso que eles já concordaram em instaurar a república na primeira reunião da assembleia constituinte.

MRZ - Mas se o vosso exército não estiver presente, que força terão para se opor ao rei, o qual continua com as suas manobras?

P - Não desmobilizaremos o nosso exército (...) Houve um acordo no sentido de que os dois exércitos (o EPL e o Exército Real) fossem integrados e um novo exército seria organizado. (...) Esta é a essência dos nossos acordos. Não há pois que centrar a discussão sobre este ponto, havendo sim que fazê-lo na questão da república e da criação de um sistema republicano.

(...)

MRZ - Se o vosso partido tiver que formar um governo sem a cooperação dos outros partidos, estarão preparados para isso?

P - Sim, estamos. Se os outros partidos não quiserem formar um governo, então nós formaremos o nosso próprio governo. Eles pensam que passados três meses conseguirão cercar-nos e desmantelar o nosso governo. Mas nós acreditamos que, uma vez que este tenha entrado em funções, tomará importantes decisões a favor das massas do povo e a favor da nação. Poderemos assim alargar a nossa base de apoio e a nossa organização e seguir em frente.

MRZ - O senhor usou o termo "revolução económica" e disse que após a formação do governo a tarefa é a da revolução económica. Diga-nos alguma coisa sobre os vossos primeiros passos; a economia está numa situação difícil.

P - Sim, eu penso que há uma forte relação entre o desenvolvimento económico e uma paz duradoura. (...) E o nosso país dispõe de recursos naturais em grande abundância: por exemplo, temos um vasto potencial hidro-eléctrico e o turismo pode ser uma grande indústria. Há muitas coisas que podemos fazer. Nos tempos que se seguem devemos optar por um sistema de economia mista. (...) Ainda não completamos a revolução democrática. (...) Mas, depois de dez anos de Guerra Popular, concretizamos algumas mudanças políticas e sócio-económicas, as quais se continuam a desenvolver. Dado que a nossa revolução está numa fase de transição, tentamos aplicar algumas novas tácticas e novas políticas, tendo em conta a situação económica e nacional nestas primeiras décadas do século XXI. Assim, temos de adoptar uma política económica de transição. Não exactamente a política económica da Nova Democracia, nem exactamente a plítica económica do sistema burguês, mas qualquer coisa entre uma e a outra. (...) E queremos encorajar os capitalistas nacionais, a "burguesia nacional" como costumamos dizer; queremos encorajá-los a investir e a gerar emprego, a investir no sector industrial, criando novas possibilidades. E, através deles, queremos atrair investimento estrangeiro, mas de acordo com a nossa decisão, tendo em conta a nossa prioridade. Até agora, todas as decisões foram tomadas, não pelo povo e pelo governo do Nepal, mas pelas instituições estrangeiras e internacionais, como o Banco Mundial. Mas agora queremos mudar esse padrão. (...) Nas áreas rurais e no sector hidro-electrico, queremos ter pequenos projectos hídricos, médios projectos hídricos, e grandes projectos, e não apenas estes últimos.

MRZ - Um problema sério é a situação de bancarrota do Estado, as suas enormes dívidas, o que não deixa muita margem de manobra, pelo menos se as coisas forem conduzidas nos velhos termos. Como é que vão lidar com isto?

P - Penso que se trata de um desafio, e estamos a encará-lo como um desafio positivo. A primeira questão é a de mobilizar os milhões de elementos das massas para reconstruir o país. Sem isso ser conseguido, nada pode ser feito. Divulgaremos tudo, de uma forma transparente, às massas do povo: esta é a situação em que nos encontramos, o governo e o Estado mundiais conduziram este país à bancarrota. Se cada um dos cidadãos não assumir o compromisso de ir em frente e construir o país, será muito difícil para nós promover e sustentar o desenvolvimento. Assim, a nossa primeira prioridade será elucidar as massas do povo sobre a real situação do governo e tudo o que aconteceu no passado. O segundo ponto é que tudo faremos para mobilizar a burguesia nacional, os capitalistas nacionais. Há muita gente que pode dar a sua contribuição. Se traçar-mos um plano científico, um plano económico, tendo em conta a nossa situação, poderemos mobilizar esses industriais e capitalistas nacionais para investir de uma forma produtiva. E penso também que, dado estarmos situados entre a Índia e a China, países que têm a economia em rápido desenvolvimento, podemos beneficiar deste facto. Da minha parte, tenho tentado estabelecer discussões sérias com o Partido Comunista da China e com o governo chinês. Como é que eles podem apoiar a tarefa de reconstrução do país? Com quanto podem contribuir e que mobilização podem fazer do seu povo para investir no nosso país? E também mantemos conversações com os partidos e representantes governamentais da Índia: como podem eles contribuir para apoiar os nossos esforços de reconstrução do país? Assim, eu penso que, no que respeita a estes dois países e de acordo com o nosso próprio plano e as nossas prioridades, podemos mobilizar contribuições económicas positivas.

(...)

MRZ - E sobre a tarefa de trazer os jovens de regresso à agricultura, qual é a situação neste campo?

P - Já decidimos pôr em prática uma reforma agrária científica. No Nepal existem situações diversas na região de Tarai (terras de planície), nas regiões dos Himalaias e nas demais regiões montanhosas. O foco principal dessa reforma agrária científica será a região de Tarai, porque é lá que se encontram as principais terras aráveis. Aí deve haver limites à dimensão das propriedades e a terra dos proprietários absentistas deve ser redistribuída entre os camponeses. Mas a nossa prioridade será a comercialização do produto agrícola, porque sem resolver este problema não podemos desenvolver a agricultura. Queremos estabelecer agro-indústrias. Não podemos mobilizar a juventude para o trabalho agrícola se persistirem os métodos tradicionais de produção. Temos de criar algo de novo, criando empregos nas agro-indústrias. Isso permitirá comercializar o conjunto da produção e constituirá um passo revolucionário para elevar os níveis de vida do povo.

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