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quinta-feira, 8 de março de 2012

POPULISMO X CHAVIZMO: DIFERENÇAS HISTÓRICAS


Desde a ascenção de Chávez na Venezuela a mídia de todo o mundo tem feito uma campanha para desmoralizar o processo revolucionário e um dos meios utilizados é a ridícula comparação com o populismo. A mídia, como representante fiel da classe dominante, faz de tudo para descredibilizar qualquer processo revolucionário com medo de que estes sirvam de exemplo para os demais povos. A luta contra a "moderna Santa-Aliança" liderada pelo imperialismo ianque é um dever de todo indivíduo comprometido com o desenvolvimento harmônico, a solidariedade entre os povos e a verdade.

De fato a esquerda institucional radical latino-americana da virada desse século compartilha características em comum com o populismo do século passado, mas o centro de uma análise coerente não pode ser apenas a forma em detrimento do conteúdo e é nisso que pecam tanto os cães de guarda da grande mídia quanto os ortodoxos autodenominados de esquerda.

O conteúdo de classe do populismo era essencialmente burguês, surgiu para defender a industrialização nacional e lutar contra as elites agrárias e os setores burgueses ligados ao imperialismo. Estabeleceram uma aliança com a classe operária como forma de obter apoio para seu projeto anti-imperialista e ao mesmo tempo garantir a hegemonia burguesa, impedindo a revolução comunista. Era um período de ofensiva histórica das forças revolucionárias socialistas e de grande prestígio da Revolução Russa. O populismo era declaradamente anti-comunista, chegando em certos momentos a perseguir tanto os revolucionários quanto qualquer ditadura pró-imperialismo.

As esquerdas eleitorais surgidas na década de 90 e que estão ganhando força nesse início de século XXI já surgem em um momento histórico totalmente diferente. No mundo, o imperialismo avança com grande força e os revolucionários tradicionais encontram-se em defensiva estratégica, acuados principalmente por causa da queda da URSS (na qual foi muito comemorada por alguns pseudo-marxistas que hoje batem em Chávez) e da crise do marxismo. Em seus respectivos países (Venezuela, Bolívia, etc.) a ala nacionalista da burguesia encontra-se totalmente debilitada, foi derrotada através de golpes militares e mantida fora do poder durante as décadas de avanço neoliberal. Na Venezuela, Chávez é representante de amplos setores da sociedade, principalmente camponeses, trabalhadores urbanos e pequenos proprietários. Chávez é declaradamente socialista, possui um projeto claro de construção do poder popular e de socialização da propriedade privada, que ainda está em curso, podendo ou não se concretizar. A participação do Partido Comunista no governo de Chávez é outro fator que não pode ser esquecido.

O populismo serviu para impedir a revolução comunista num momento de ofensiva histórica do marxismo-leninismo. O chavizmo é o oposto, é uma resposta de amplos setores da sociedade às mazelas do capitalismo num momento onde as forças marxistas-leninistas encontram-se em defensiva estratégica. O conteúdo de classe e o momento histórico dos movimentos são totalmente distintos e até opostos. Querer dizer que vinho é igual água por que os dois são liquidos chega a ser infantil e chamar Chávez de populista, neopopulista ou sei lá qual termo inventem, não passa de aplicação mecânica do passado, quase sempre mal intencionada.

A pouca compreensão da importância do socialismo científico como guia para a ação revolucionária e a não condução direta do processo por uma vanguarda leninista pode gerar uma série de contradições no processo revolucionário venezuelano, mas nada melhor do que a prática revolucionária para aperfeiçoar dia após dia a luta do povo latino-americano pela "Pátria Grande" e socialista.

Pátria, socialismo ou morte!

Juramos vencer e venceremos!

Diego Grossi

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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

AS MISTIFICAÇÕES DA IDEOLOGIA BURGUESA EM RELAÇÃO AO PENSAMENTO COMUNISTA


"Se você é comunista, por que usa tênis da Nike?”

Pode parecer sem sentido começar um texto com uma frase desse tipo, mas ela reflete bem uma faceta da ideologia burguesa que será analisada e combatida ao longo do artigo. Perguntas do tipo, em suas mais diversas variações, provavelmente já foram ouvidas por todos os comunistas que lerem este texto, mas ela reflete algo muito mais complexo do que uma ingenuidade ou um erro de interpretação cometido por alguém que inicia seus estudos do marxismo. Vamos, então, analisar quais seriam os pressupostos, em dois pontos, daqueles que geralmente fazem uma pergunta do tipo.


1.“O socialismo como negação absoluta do capitalismo”

Que os comunistas defendem um novo tipo de sociedade, a sociedade socialista e comunista, não é nenhuma novidade. Porém, tal sociedade representa uma negação completa da sociedade que ela visa substituir, ou seja, a sociedade capitalista? Vejamos o que diz Lênin, em seu texto Sobre o Imposto em Espécie publicado em Maio de 1921:

"“Nós” voltamos frequentemente a cair neste raciocínio: “o capitalismo é um mal, o socialismo é um bem”. Mas este raciocínio é errado, porque esquece o conjunto das estruturas econômico-sociais existentes, abarcando apenas duas delas."

E continua:

“O capitalismo é um mal em relação ao socialismo. O capitalismo é um bem em relação ao medievalismo, em relação à pequena produção, em relação ao burocratismo ligado à dispersão dos pequenos produtores”

A passagem que citamos, encontra-se em um texto que foi escrito por Lênin, com o objetivo de intervir na luta de idéias no seio do Partido Comunista da União Soviética, em favor da NEP, e sua política que estabeleceu um imposto em espécie aos camponeses russos, para que eles vendessem sua produção excedente após o pagamento do mesmo. Era urgente para os bolcheviques empreenderem a reconstrução econômica da Rússia, que estava devastada após a guerra-civil, e a solução encontrada foi permitir a liberalização de relações mercantis no campo, guiando cada vez mais a pequena-produção para o capitalismo de estado e também utilizando o capitalismo privado para o fortalecimento do socialismo.

Estaria Lênin e os bolcheviques “traindo” o comunismo? Apesar de uma parcela da “esquerda” da época, como os anarquistas e os chamados “comunistas de conselho”, julgamos que não e a própria prática acabou demonstrando a justeza desta concepção leninista da construção socialismo.

Fizemos questão de citar esta passagem do texto de Lênin, pois ela evidencia algo que muitas vezes fica esquecido: O capitalismo não é de todo um mal, se comparado a práticas e formações sociais características de modos de produção mais atrasados, como, por exemplo, o feudalismo, que era uma realidade na época em que os bolcheviques tomaram o poder na Rússia. Ainda em outro texto, publicado em 1918, chamado A tarefa principal de Nossos Dias – Acerca do Infantilismo “de Esquerda” e do Espírito Pequeno-Burguês, Lênin exorta que os comunistas aprendam com o que existe de mais moderno em termos de técnica e organização da produção.

Se defendêssemos concepções como a que serve de base para nossos comentários, não poderíamos demorar mais um minuto para colocarmos Lênin na lista daqueles que “traíram” o socialismo e se venderam ao capital.

Com o que aqui foi exposto, podemos concluir que o socialismo é a superação da sociedade capitalista e não sua simples negação; superação que se dará por meio da socialização dos meios de produção, que necessitam de condições subjetivas e objetivas para serem realizadas. Para construir com êxito a sociedade socialista, é de extrema importância observar e aprender com o que existe de mais avançado em termos de ciência, tecnologia e organização alcançado por países capitalistas mais desenvolvidos.


2. “Comunistas não podem consumir produtos feitos por empresas capitalistas”

O segundo pressuposto é um dos mais recorrentes pela ideologia burguesa dominante. Este argumento deixa mais ou menos implícito que o comunista é aquele que atua contra a ordem estabelecida por meio dos boicotes a marcas famosas de variados tipos de produto. Segundo esta idéia, um comunista não poderia utilizar, por exemplo, um tênis da Nike, pois a marca do tênis é um símbolo importante do capitalismo, sociedade que o comunista combate e que, portanto, segundo o burguês, deveria negar por completo. Os comunistas, por serem críticos da ordem capitalista, deveriam abrir mão de maravilhas do tipo, frutos exclusivos do capitalismo, criações milagrosas da idolatrada figura do empreendedor de sucesso, ou seja, do burguês.

Tal concepção esquece um dado, que para os marxistas é fundamental: Quem produz o tênis da Nike, por meio do trabalho, são os trabalhadores e não o proprietários/acionistas de uma determinada empresa.

Como observou o filósofo espanhol Francisco Umpierrez Sanchez, em texto que aborda um tema parecido, publicado no site Rebelion (Fidel Castro y el chándal de Adidas):

"Diante das pirâmides do Egito o burguês enxerga somente o faraó que as mandou construir, enquanto o marxista enxerga os escravos que a criaram."

Sendo assim, por viver em uma sociedade capitalista e estar necessariamente inserido em relações de produção capitalistas, um comunista também pode consumir os produtos – que antes de tudo são produzidos pelos trabalhadores – das grandes marcas, ainda que desvencilhados de uma visão fetichista da mercadoria. Os produtos são feitos sob o capitalismo, mas antes de representar a marca, a empresa, são frutos do trabalho humano, que é a categoria fundante do homem enquanto ser social. O trabalho também existiu em outras sociedades (escravismo, feudalismo) e continuará existindo na sociedade socialista e comunista.

Gabriel Martinez

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