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domingo, 22 de agosto de 2010

FÍSICA MODERNA NA SALA DE AULA: SONHO OU UMA REALIDADE VIÁVEL


Francisco Caruso, professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) defende neste artigo a modernização do ensino da física em sala de aula, introduzindo as descobertas realizadas durante o século XX, por pensadores como Albert Einstein.

Muito se tem falado sobre a necessidade de se ensinar Física Moderna antes da graduação e muitos têm questionado sua viabilidade. Para os mais incrédulos eu diria, para começar, que obviamente isto é possível. Basta lembrar o que aconteceu historicamente: os ensinamentos de Galileu e de Newton, só para citar dois dos mais conhecidos, já foram parte integrante de uma Física de fronteira e hoje são ensinados sem obstáculos no ensino médio. É claro que já houve época na qual a contribuição científica destes autores ficou fora da escola por motivos ideológicos, pois conflitavam com a Física aristotélica, abraçada como dogma pela Igreja Católica. Superado este tipo de problema, entretanto, qual ou quais os empecilhos?


O primeiro movimento de mudança já está em curso no Brasil: há vários grupos elaborando propostas de ensino de certos conceitos de Física Moderna, mas, na maioria das vezes, de forma pontual. Neste processo, revistas como a Revista Brasileira de Ensino de Física e o Caderno Brasileiro de Ensino de Física desempenham importante papel. No entanto, a absorção real das propostas divulgadas em artigos é muito lenta e acaba tendo influência muito localizada.

Outra tendência louvável neste sentido são os cursos de especialização e mestrados profissionalizantes voltados para docentes do ensino médio e do fundamental. Entretanto, em minha opinião, falta um movimento institucional mais amplo voltado para uma radical reformulação das licenciaturas em Física. Gostaria de ver uma revalorização do conteúdo comprometida com o fato de ser a Física uma ciência experimental, ao mesmo tempo em que se pensa em novos conteúdos e novas formas de transmitir o conhecimento científico. Gostaria de ver um novo professor que durante toda a sua formação universitária se preocupou e refletiu sobre como ensinar (inclusive a Física Moderna). Talvez a SBF pudesse propor e coordenar uma discussão nacional sobre as licenciaturas. Sou favorável a um novo currículo mínimo de licenciatura, completamente diferente dos atuais. Só assim poderemos parar de nos preocupar com a assim chamada “reciclagem” dos professores e nos dedicarmos mais à qualidade da formação dos novos profissionais e dos jovens.

Outra vertente do problema de como ensinar Física Moderna em nossas escolas está no fato de que elas ainda estão formando jovens que concluem o ensino médio com uma visão aristotélica da Física, como mostrei no artigo A queda dos corpos e o aristotelismo: um estudo de caso do vestibular, analisado em a Persistência do Aristotelismo. Na verdade, não é difícil compreender esta tendência, uma vez que o aristotelismo na ciência é uma boa expressão do senso comum, tão predominante em países com alto nível de analfabetismo funcional e científico. Segue-se, portanto, logicamente, a pergunta: como ensinar Física Moderna para alunos que ainda pensam como Aristóteles e sequer compreenderam a Física de Galileu? Há ainda um agravante, como bem disse meu amigo Ruben Aldrovandi ao comentar nosso livro Física Moderna: Origens Clássicas e Fundamentos Quânticos. Para ele, a Física Moderna está “imersa na milenar história dos embates culturais, que foram aos poucos libertando os cientistas do imediato e os inspiraram por caminhos para os quais a experiência cotidiana não serve mais de guia”. Logo, o desafio é: os alunos ainda pensam em conformidade com o senso comum, mas este não serve para se compreender ou estabelecer analogias em Física Moderna. Acho que este ponto deve ser, na verdade, a base de qualquer reflexão crítica de como introduzir conceitos contemporâneos da Física no ensino médio. Sem conhecermos a realidade de nossos alunos, é difícil construir propostas eficazes. Claro que, com o tempo, as coisas termalizam e se acaba chegando a um denominador comum do que ensinar e como fazê-lo, mas meu ponto é que este tipo de processo é sempre muito lento.

Na verdade, a partir da observação do Aldrovandi, diria que a História da Ciência pode ser um instrumento importante em novas propostas de ensino de Física Moderna nas escolas, aliada a bons textos de divulgação científica. Posso citar, como um exemplo, algo que aconteceu comigo. Como já declarei em outra ocasião, minha escolha de fazer Física de Partículas em muito se deve às aulas que tive sobre os modelos atômicos de Thomson, Rutherford e Bohr no ensino médio, todas fortemente calcadas em informações históricas. O detalhe aqui, que não deixa de ter uma ponta de ironia, é que este assunto – que já é um assunto centenário – foi e continua sendo ensinado nas aulas de Química e não de Física, embora sejam modelos físicos do átomo.


Entretanto, quero concluir enfatizando que não acredito em nenhuma mudança em larga escala e a curto ou médio prazo baseada em propostas individuais, por mais louváveis que sejam, sem uma ampla discussão nacional sobre as licenciaturas. Óbvio que isto não deve ser entendido como um desestímulo àqueles que têm trabalhado seriamente em prol do desenvolvimento do ensino de Física e da qualidade do ensino básico desta disciplina. Na pior das hipóteses, daqui a décadas ou séculos se terá convergido para uma forma particular de se ensinar a Física do século XX nas escolas, a exemplo do que aconteceu com a Física newtoniana.


Fonte: http://escoladocbpf.blogspot.com/

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

AUTOR POLEMIZA AO DEFENDER QUE O BIG BANG NÃO FOI O INÍCIO DO UNIVERSO


O cosmólogo Mário Novello lança novo livro e bate de frente com a comunidade científica. Para ele, é preciso superar o modelo segundo o qual o universo teria tido início em uma explosão primordial.

O autor do nosso 'livro da semana' no Bússola, Mário Novello, sabe que a sua ideia é polêmica. Ou, ao menos, gera polêmica. Tanto sabe que deu, em entrevista à Folha de S. Paulo no final de maio, a seguinte declaração: "Se você entrevista cem físicos, 98 dizem que o Big Bang é verdade e dois malucos dizem que não".

Físico e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), Mário faz parte desses 2% de cientistas que defendem que o Big Bang não foi o momento inicial do universo. E é exatamente este o assunto-chave do seu novo livro: Do Big Bang ao Universo Eterno.

Em dezembro de 2007, Mário terminou um artigo que, segundo ele, "analisava de modo crítico as diferentes propostas que os cosmólogos produziram, ao longo do século 20 até os nossos dias, envolvendo modelos cosmológicos não singulares, isto é, modelos que se opõem frontalmente ao antigo cenário-padrão chamado Big Bang".

O objetivo do artigo, publicado na revista Physics Report, era combater a ideia do Big Bang como único paradigma possível para explicar o universo. O livro é baseado nesse texto de 2007.

O autor discorre com clareza sobre o que seria o Universo Eterno – assunto pouco explorado e conhecido pelos mais leigos. Além disso, usa as 130 páginas do livro para criticar duramente parte da comunidade científica que, segundo ele, defende um modelo inibidor de "uma história racional completa do universo". Assim, navega contra a corrente e a maioria da comunidade científica, que tem na teoria do Big Bang um alicerce seguro.

Diversas obras foram lançados sobre o tema. A maioria sai em defesa do modelo hegemônico. É o caso, por exemplo, do livro do renomado jornalista de ciência Simon Singh, que lançou em 2004 Big Bang (leia a resenha da CH On-line).
Leitura tranquila

Com linguagem corriqueira (embora apresente algumas fórmulas de difícil compreensão para os leigos) , Mário navega por todos os modelos para explicar o início (ou não) do universo. Até chegar à sua predileta: justamente o Universo Eterno. Um universo que, diferente daquele supostamente criado pelo Big Bang, não teve uma explosão primordial – ao contrário do que diz a maioria dos cientistas, o universo sempre teria existido.

Mário, que na entrevista para a Folha diz ser ele o fundador da cosmologia no Brasil, acrescenta:

"O Big Bang, esse estágio de condensação máxima pelo qual o universo passou, deixou de ser identificado com seu "momento de criação" para se transformar – agora, de modo racional – em nada mais que um momento de passagem na história da evolução do universo. Hoje, ao examinar as propriedades do programa do universo eterno dinâmico e entenderemos o processo físico que permitiu interromper o colapso gravitacional e penetrar na fase atual de expansão, percorrendo os caminhos que antecederam o Big Bang, estamos realizando a função de retirar desse momento o início da história do universo, projetando-a para um passado bem mais longínquo. Isso requer uma mudança nos hábitos de pensar a totalidade maior."

Fonte: Instituto Ciência Hoje

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