domingo, 23 de maio de 2010

BOTVINNIK E O XADREZ NA URSS


Mikhail Botvinnik (1911 - 1995) foi o pioneiro da dominação russa do xadrez mundial, que, excetuando-se o breve reinado de Bobby Fischer, vem durando a maior parte do século XX. Mas, o que é mais importante para o enxadrista comum, foi o primeiro a tratar o xadrez como uma ciência e um esporte e a formular um programa de treinamento sistematizado para competição.

Esta atitude séria perante o xadrez contrastava com a de Steinitz, fiel às suas aberturas inconsistentes mesmo depois de derrotas, com as de Lasker e Capablanca, que raramente se preparavam para os torneios, e até com a de Alekhine, cuja preocupação meticulosa com os adversários não incluía os cuidados com a própria condição física.

O papel do xadrez na sociedade soviética tornou a atitude de Botvinnik proveitosa não só para ele - campeão mundial em potencial - como para outros. Lênin era um aficionado do xadrez, assim como Krilenko, um de seus tenentes. Sob sua influência, o xadrez tornou-se um esporte russo oficialmente reconhecido e os mestres puderam, então, receber um salário do Estado.

Botvinnik aprendeu a jogar aos doze anos - um pouco tarde para um campeão mundial. Mas, aos catorze, derrotou Capablanca numa exibição simultânea e, em 1927, participou pela primeira vez do Campeonato Soviético. Graduou-se em Leningrado como engenheiro eletrônico, e manteve seu trabalho científico mesmo depois de conquistar o título mundial.

Seu grande sucesso começou em meados da década de 30, quando venceu dois eventos importantes em Moscou e empatou em primeiro lugar com Capablanca, à frente de Alekhine, Lasker e outros poderosos adversários, no torneio de Nottingham. Um de seus primeiros atos, após esse triunfo, foi assinar um telegrama, escrito na realidade por Krilenko, agradecendo a Stálin e à nação soviética pelo seu apoio. Nos anos seguintes, tornou-se um dos objetivos principais da organização russa de xadrez assegurar uma chance de disputa pelo título mundial para Botvinnik. Quando Alekhine faleceu, deixando o título vago, a Federação Mundial de Xadrez promoveu um torneio decisivo do qual Botvinnik saiu vitorioso com boa distância de Smyslov, Keres, Reshevsky e Euwe.

Botvinnik atingiu o ápice no período anterior à sua conquista do título mundial, durante a limitada atividade do xadrez na guerra e depois. Embora tenha permanecido campeão com alguns intervalos, de 1948 a 1963, perdeu matches mundiais para Smyslov e Tal antes de recuperar o título e apenas empatou em seu match de 1951 contra Bronstein. Depois de sua derrota de 1963 para Petrossian, e com a cláusula do match de desforra abolida, abandonou a competição pelo título e transferiu seus interesses de enxadrista para dois projetos a longo prazo: formular uma programação de xadrez para computadores e ensinar um futuro campeão mundial soviético. Até agora, o primeiro projeto teve uma evolução apenas limitada, mas o segundo conseguiu um sucesso brilhante. Tanto Karpov, quanto Kasparov, são alunos de Botvinnik.

A grande força de Botvinnik como enxadrista foi seu comando estratégico, mas não se trata da estratégia de Capablanca, límpida e orientada para o final. Ele gostava de posições complexas, com boas chances para ambos os lados, baseado em sua habilidade de manobra, aliada à percepção do momento de simplificar para o final. Botvinnik era especialista na defesa Francesa (1. e4 e6) e, mais tarde, na Caro Kann (1. e4 c6) com as pretas, e em aberturas do flanco da dama como a Nimzo Índia (1. d4 Cf6 2. c4 e6 3. Cc3 Bb4) e a defesa Eslava com troca (1. d4 d5 2. c4 c6 3. cxd5) com as brancas. Duas idéias freqüentes em suas partidas são o sacrifício de uma torre por um bispo ou cavalo, para criar um centro de peões móvel, e a utilização efetiva do bispo a longa distância na fase final do meio-jogo, depois da troca de várias peças. Esta última idéia pode ser de grande eficácia para o enxadrista comum.


Fonte: cex.org.br

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